Prince foi um gênio musical e você tem que saber disto

Era um cantor excelente e um multiinstrumentista completo, pois tocava muito bem quase tudo que você possa imaginar. Não foi à toa que gravou vários álbuns tocando todos os instrumentos e depois botava uma enorme banda – sempre com músicos extraordinários, como a baterista Sheila E. e o lendário saxofonista de James Brown, Maceo Parker - na estrada obedecendo às suas ordens.

Assim como acontecia com David Bowie, nunca dava para saber que tipo de álbum ele lançaria, que tipo de show exibiria e que tipo de projeto criaria. Era sempre uma surpresa. Quem iria imaginar que ele montaria uma banda só com garotas para tocar rock pesado e musculoso como fez com o 3rdEyeGirl? Prince literalmente era dono de seu próprio espírito, uma autonomia artística da qual pouca gente já saboreou um dia.

Capaz de criar qualquer tipo de som, mas quase se concentrando em uma explosiva mistura de funk – o verdadeiro, diga-se de passagem -, soul, r&b, jazz, rock e pop -, daquelas de rachar o assoalho e pulverizar nossos cérebros até que os mesmos escorressem pelas orelhas, vivia enclausurado em sua mansão/estúdio Minneapolis, batizada como “Paisley Park”, onde vivia uma realidade paralela da qual pouca gente tinha acesso. Era como se fosse um “Elvis negro”, cercado de aduladores e envolto em uma rotina de composição e gravação insana – reza a lenda que há um cofre lá contendo as fitas de mais de duas mil canções que ele não chegou a lançar. Pode apostar que daqui uns tempos vão surgir uns ‘trocentos’ álbuns póstumos do baixinho.

Ele realmente se tornou um fenômeno mundial nos anos 80, quando o ótimo álbum Purple Rain (1984) se tornou quase uma unanimidade para quem curtia música pop, mesmo sendo a trilha sonora de um filme pavoroso estrelado, dirigido e produzido pelo próprio Prince. Só que eu lhe pergunto: conhece a imensa lista de hits sensacionais que ele lançou? E a inacreditável quantidade de canções espetaculares que distribuiu ao longo de sua extensa discografia? A verdade é uma só: a pior canção de Prince é melhor que 94% da produção musical de 1985 para cá. Mesmo quando suas canções não tinham nada – como a ‘minimalista’ “Kiss”, de uma simplicidade que beira o inacreditável -, elas soavam como pequenas pérolas reluzentes. Não dava para ficar indiferente a qualquer coisa que ele lançasse.

Sua presença de palco era tão mágica que dava a impressão de estarmos diante dos espíritos de James Brown, Marvin Gaye, Michael Jackson, Miles Davis, Duke Ellington, Sam Cooke e Nina Simone, todos reunidos em seu corpo de baixíssima estatura, mas que se tornava gigante ao vivo. E ainda fazia questão de deixar explícita a sua admiração por Sly & the Family Stone e George Clinton com os seus combos Parliament/Funkadelic. Para ‘piorar’, era um guitarrista absurdamente espetacular, um “mini Jimi Hendrix”. Pena que o preconceito retardado de muita gente – principalmente no meio do metal, um universo lotado de gente com ervilhas no lugar do cérebro - impediu tal constatação.

Foi a autonomia artística que o impeliu a bater de frente contra as regras do show business. Quando soube que não tinha os direitos sobre as suas gravações originais lançadas pela Warner, tomou a decisão de sabotar a si mesmo, enviando para a gravadora músicas que julgava horríveis. Bem, ele achava isto, porque estas “merdas” apareceram em álbuns que eu julgo como muito bons, como são os casos de The Golden Experience (1995) e Chaos and Disorder (1996).

Chegou a mudar de nome – substituído por um símbolo indecifrável – para não facilitar as coisas para sua gravadora. Para muitos, virou um maluco milionário que aparecia nas fotos com a palavra “slave” (“escravo”) pintada no rosto; para outros, como eu, um artista que não abaixou a cabeça para as “regras de mercado”, que impedia que fosse o dono de seu próprio trabalho, de suas criações. Quando seu contrato com a Warner expirou em 1996 e não foi renovado, soltou um CD triplo excelente – sim, triplo! -, batizado como Emancipation e com uma capa tosquíssima, na qual exibia suas mãos livre de correntes. Nem precisava explicar… Pena que muita gente parou de acompanhar a sua produção musical daí em diante.

O cara era tão genial que expandiu seu campo de atuação para outros tipos de mídias. Lançou os álbuns Planeth Earth (2007) e 20Ten (2010), encartados em jornais ingleses e irlandeses, algo impensável para um artista de sua magnitude. Foi um dos primeiros a alertar a respeito dos problemas de diluição da informação e da criação artística da internet. Mandou retirar seus vídeos do You Tube, não havia sinal dele nas redes sociais e nem nos streamings da vida. Baixar suas músicas em qualquer de downloads era impossível. Mão de ferro total contra o universo digital de distribuição musical.

É claro que não foi perfeito em termos artísticos de uma forma mais ampla. Sua sensualidade estética era na verdade uma pseudoandroginia cafoníssima, para não dizer bizarra. Seus filmes são pavorosos, que se salvam apenas nos momentos em que ele surge tocando.

Prince morreu ontem – leia mais a respeito disto aqui - e até o momento em que escrevo estas linhas não se sabe a causa: gripe, overdose de cocaína, ataque cardíaco, possessão ou o raio que o parta. Isto não tem a menor importância no momento. O que você tem que saber é que o baixinho foi um gênio musical, daqueles que fariam Jimi Hendrix e Miles Davis tirar o chapéu.