Principais candidatos em Minas sofrem com históricos ruins de combate à violência

Manifestação dos servidores da segurança contra atraso dos salários no centro de BH (Sindpol-MG/Divulgação)
Manifestação dos servidores da segurança contra atraso dos salários no centro de BH (Sindpol-MG/Divulgação)

Por Marcelo Coelho

Belo Horizonte (MG) — A segurança pública se tornou tema crucial na campanha eleitoral deste ano em Minas Gerais. Assim como nas discussões políticas nacionais, em que a violência é apontada como principal problema do país por um em cada cinco brasileiros (de acordo com pesquisa do Datafolha do início de setembro), os mineiros também cobram dos candidatos ao governo soluções para reduzir a criminalidade. O motivo de tanta preocupação fica claro nos índices mais recentes do Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que apontam um aumento de 11% no número de homicídios no estado entre 2006 e 2016.

O período em que o levantamento sobre a violência foi feito coincide com o período em que os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto – Antonio Anastasia (PSDB) e Fernando Pimentel (PT) – governaram Minas Gerais. Os dois são alvos de críticas e cobranças por parte de sindicatos e associações de servidores da segurança, que citam o sucateamento das polícias como legado dos governos tucano e petista no estado.

“Acompanhamos um descaso total dos governantes mineiros para a área da segurança pelo menos nos últimos 16 anos, com poucos investimentos no setor. Essa situação é percebida muito antes do início da crise econômica que derrubou o estado nos últimos anos. Um estudo estratégico feito em 2010 apontou que Minas precisaria de 19 mil policiais civis para atender à população de 20 milhões do estado, mas quase uma década depois, temos hoje cerca de 10 mil policiais civis atuando, quase a metade do necessário”, cobra o delegado Marcelo Armstrong, vice-presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil em Minas Gerais (Sindipol-MG). Ele aponta ainda que cerca de 30% dos profissionais do setor estão afastados por problemas psiquiátricos devido ao excesso de trabalho e insegurança.

Inspeção em presídio de Conselheiro Lafaiete (Sindpol-MG/Divulgação)
Inspeção em presídio de Conselheiro Lafaiete (Sindpol-MG/Divulgação)

Durante inspeção da entidade em uma das delegacias regionais, no município de Conselheiro Lafaiete, na região Central do estado, foram apontados diversos problemas estruturais para o trabalho dos policiais. “As delegacias estão caindo aos pedaços, faltam viaturas para as investigações e para o transporte de presos. Em Lafaiete constatamos que os presos provisórios estão sendo colocados em correntes presas em argolas de ferro até a finalização dos procedimentos legais. Já houve caso de preso que consegue se soltar e agredir os policiais. As condições de trabalho são absurdas”, relata Armstrong.

Em 2018, uma série de fugas em penitenciárias mineiras expôs mais um grave problema da segurança pública no estado. Nos últimos nove meses foram registradas fugas em presídios em quase todas as regiões do estado: na região Metropolitana, no Triângulo, no Sul e no Vale do Jequitinhonha. Só no Complexo Penitenciário Nelson Hungria, um dos maiores de Minas, entre o final de dezembro e abril mais de 25 detentos conseguiram escapar.

O aumento da violência contra as mulheres também acendeu a luz amarela para as autoridades mineiras. Entre 2016 e o final do ano passado, os casos definidos como feminicídio aumentaram 9%, com média de mais de um crime contra as mulheres registrado por dia no estado, segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública de Minas Gerais.

Casos de assaltos são comuns para a maioria das famílias mineiras, com os altos índices principalmente nas regiões metropolitanas do estado. Após ter uma arma colocada na sua cabeça, o empresário Henrique Borges Lagares, teve de entregar seu carro em um assalto no município de Contagem, na região Metropolitana de BH – de acordo com o Atlas da Violência, a cidade está entre os 100 municípios de grande porte mais violentos do país. “O assaltante não tinha mais de 20 anos. O problema da violência em Minas tem muito a ver com a impunidade. Hoje em dia o criminoso sabe que ser for roubar não será pego, mesmo se for pego pode nem ser preso, já que não tem lugar nas cadeias. Acho que não só o governador, mas é preciso o conjunto dos representantes, prefeitos e parlamentares, traçarem uma estratégia de segurança pública séria para o país”, opina Henrique.

Manifestação dos servidores da segurança contra atraso dos salários no centro de BH (Sindpol-MG/Divulgação)
Manifestação dos servidores da segurança contra atraso dos salários no centro de BH (Sindpol-MG/Divulgação)
Invasão ao Palácio da Liberdade

Em junho, um episódio envolvendo agentes da segurança pública em Minas ganhou grande repercussão no país. Cerca de 2 mil policiais (entre civis, militares da reserva, bombeiros e agentes penitenciários) invadiram a sede do governo estadual, o Palácio da Liberdade, para protestar contra os atrasos e parcelamentos nos pagamentos de salários. Os manifestantes abriram à força o portão do palácio e montaram barracas nos jardins do prédio histórico. Depois de quase 20 horas de protesto, uma ordem judicial determinou que eles deixassem o local. Representantes do governo consideraram a manifestação um ato político para desgastar o governo.

O combate à criminalidade é cobrança constante aos candidatos ao governo de Minas nos debates e agendas de campanha. O governador Fernando Pimentel, que tenta a reeleição, aponta a ampliação das bases comunitárias – viaturas e vans policiais instaladas nos bairros da capital mineira – para o interior de Minas como principal proposta. “Os crimes violentos estão em queda. O modelo de policiamento das bases comunitárias foi um sucesso em BH e queremos levar esse modelo para o interior”, afirmou Pimentel durante o último debate dos candidatos na TV Alterosa. O petista citou ainda que nomeou 1 mil agentes de polícia e pretende inaugurar nos próximos meses uma academia de polícia na região metropolitana.

Em seu plano de governo entregue ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG), o senador Antonio Anastasia (PSDB), cita os dados do Atlas da Violência como “alarmantes” e “inaceitáveis”, defendendo ações integradas do órgãos de segurança para reduzir os índices de violência. O tucano citou nos últimos eventos de campanha a Lei do Sistema Único de Segurança Pública, que conta com apoio dos órgãos federais em parceria com estaduais e municipais para desenvolver estratégias de combate à violência. “Essa lei atribui pela primeira vez no Brasil, ao governo federal, a responsabilidade pela coordenação da segurança pública no Brasil”, ressaltou Anastasia.

Terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto para o governo de Minas, o empresário Romeu Zema (Novo) cita em seu plano de governo os dados ruins do combate à violência dos governos do PSDB e do PT e se coloca como opção para acabar com a polarização das duas legendas. Uma de suas propostas é a liberação do porte de armas para cidadãos que não tenham condenações ou ligações com o crime. “Sou favorável ao que é humano e que cada pessoa decida o que é melhor para ela. Eu, pessoalmente, não quero ter uma arma. Mas respeito quem quer ter arma. Sou favorável às liberdades individuais. E hoje no Brasil, só quem tem arma são os bandidos”, afirmou Zema em uma sabatina sobre suas propostas de governo.

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