Principal passagem de fronteira entre Sérvia e Kosovo é reaberta

A principal passagem fronteiriça entre Sérvia e Kosovo foi reaberta nesta quinta-feira (29), após dias de tensão que deixaram o mundo em alerta pela pior crise na região nos últimos anos.

Depois que uma barricada foi desfeita no lado sérvio, a polícia do Kosovo confirmou "o retorno à normalidade" e a reabertura da passagem fronteiriça de Merdare, o principal ponto de ligação terrestre com a Sérvia, fechado desde ontem.

Imagens da televisão estatal sérvia RTS mostravam filas de veículos e caminhões do lado sérvio. Segundo a RTS, a Sérvia suspendeu na noite de segunda-feira o estado de alerta reforçado que havia imposto a suas tropas.

Depois de um pedido de calma por parte de Estados Unidos e União Europeia, o presidente sérvio, Aleksandar Vucic, anunciou ontem à noite que a minoria sérvia de Kosovo desmontaria as barricadas instaladas há quase três semanas.

"As barricadas vão ser retiradas, mas a desconfiança permanece", disse Vucic durante reunião com representantes dos sérvios de Kosovo perto da fronteira com esta região de maioria albanesa, segundo a RTS.

Na manhã desta quinta, a situação no norte de Kosovo era de calma, e foi possível observar patrulhas das forças internacionais de manutenção da paz, segundo um correspondente da AFP.

Em Mitrovica, dois caminhões utilizados para bloquear uma ponte foram queimados durante a noite. As causas do incêndio ainda são desconhecidas.

Em Rudare, perto de Mitrovica, uma dúzia de pessoas permanecia diante de uma barricada, manifestando descontentamento com a ideia de removê-la.

"Não faz sentido, lutamos por direitos que não foram conquistados, nos sentimos traídos", declarou um dos presentes, de 25 anos, à AFP, que não quis dizer seu nome.

"Para que viemos até as barricadas se tudo vai terminar assim?", disse outro manifestante, de 38 anos, que também pediu anonimato.

- Circulação bloqueada -

Desde 10 de dezembro, centenas de sérvios passaram a montar barricadas no norte de Kosovo para protestar contra a detenção de um ex-policial sérvio, acusado de envolvimento em ataques contra policiais albano-kosovares.

Na quarta-feira, um tribunal de Pristina ordenou a saída do ex-agente, Dejan Pantic, da penitenciária e o colocou em prisão domiciliar.

A primeira-ministra sérvia, Ana Brnabic, descreveu, na semana passada, a situação na região como "à beira de um conflito armado".

A polícia de Kosovo e as forças internacionais de manutenção da paz foram alvos de vários ataques com armas de fogo.

Kosovo declarou sua independência da Sérvia de forma unilateral em 2008, uma década depois de uma guerra entre forças sérvias e rebeldes albaneses.

Belgrado não reconhece a independência de sua então província meridional, habitada majoritariamente por albaneses. E tem incentivado a minoria sérvia do Kosovo, com aproximadamente 120.000 pessoas e concentrada no norte do território, a desafiar as autoridades da capital, Pristina.

No início de novembro, centenas de policiais sérvios integrados à polícia de Kosovo, e também juízes, promotores e outros funcionários, abandonaram em massa seus postos para protestar contra uma decisão de Pristina, que acabou suspensa, de proibir os sérvios residentes em Kosovo de usar placas de carro expedidas na Sérvia.

Segundo o analista político sérvio Aleksandar Popov, a tensão é tão alta em Kosovo que "bastaria uma bala perdida" para mudar o rumo da situação. Não obstante, descreveu esta última crise como um "conflito controlado" e um cabo de guerra entre Belgrado e Pristina pelo controle do norte.

Na quarta-feira, Estados Unidos e União Europeia pediram conjuntamente uma "desescalada sem condições". A Rússia, por sua vez, reafirmou seu histórico apoio a Belgrado.

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