Priorizar vacinação de professores é legítimo, diz líder da Fundação Lemann

ANGELA PINHO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Vista com reserva por médicos, a inclusão de professores na fila vacinação contra a Covid-19 antes de parte da população nos grupos de risco para a doença, como ocorreu em São Paulo, é legítima e pode evitar um cenário de abertura e fechamento sucessivo de escolas no país, diz Denis Mizne, CEO da Fundação Lemann. A instituição, com forte atuação na educação, financiou testes da vacina de Oxford/AstraZeneca no Brasil. Na quarta-feira (24), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) anunciou a antecipação da imunização de policiais e professores no estado. A medida gerou críticas de médicos, que afirmam que idosos e adultos com comorbidades deveriam ter prioridade, por serem mais propensos a desenvolver formas graves da doença. Mizne fundamenta sua avaliação com base nos danos do fechamento das escolas para as crianças e no que vê como um impulso que a vacinação vem ganhando no país e que deve avançar com a produção da vacina de Oxford pela Fiocruz. As primeiras doses envasadas no Brasil começaram a ser entregues nesta semana. Com isso, a expectativa de Mizne é que até o final de abril a maior parte dos idosos já esteja vacinada com ao menos uma dose, o que confere alguma proteção contra a doença, embora não total. "Teremos uma redução importante de mortes com a vacinação dos grupos mais vulneráveis, mas até a gente ter cobertura vacinal para a população inteira, e a pandemia ser totalmente controlada, vai demorar muito", diz. "Então, as escolas vão continuar sujeitas ao abre e fecha, e isso é muito danoso." Com aulas exclusivamente a distância por quase um ano, o Brasil é um dos países do mundo com escolas fechadas há mais tempo. Além de questões de saúde mental, o fechamento está associado a dificuldade de aprendizagem, especialmente na alfabetização, e aumento de desigualdade. Em alguns estados, como São Paulo, elas chegaram a reabrir em fevereiro, mas fecharam novamente semanas depois devido ao agravamento da pandemia. A imunização dos professores evitaria que isso ocorresse com frequência, já que se sabe que entre as crianças a frequência de casos graves é muito menor do que entre os adultos. Mizne faz também um paralelo entre a vacinação dos professores e a dos profissionais de saúde, os primeiros a receber as doses no Brasil. "É uma conta difícil de fazer [quem vai receber a vacina antes]. Mas, quando a gente optou pelos profissionais de saúde, a gente também fez essa conta, de que eram pessoas na linha de frente de uma coisa muito importante na pandemia. Os professores também estão à frente de uma coisa muito importante na pandemia, que é manter as escolas abertas", argumenta. Apesar disso, em sua avaliação, não se deve esperar a vacinação para a volta às aulas, como querem os sindicatos da categoria. Para Mizne, as escolas devem reabrir assim que a circulação do vírus der sinais de arrefecimento e seja possível reiniciar alguma atividade --o que ele concorda não ser possível no momento. Em sua avaliação, o país deve ter uma redução de mortes pela Covid entre o final de maio e o início de junho. "Apesar de termos perdido multiplas oportunidades de estar num lugar melhor, nesta segunda quinzena de março ganhamos ritmo", diz ele, que diz ter um otimismo acima da média com a vacinação.