'A prisão foi violenta, e ele buscou uma morte violenta também', diz filho de reitor da UFSC

WÁLTER NUNES
***ARQUIVO*** FLORIANÓPOLIS, SC, 09.11.2014: Vista do campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. (Foto de Cadu Rolim/Fotoarena/Folhapress)

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Na segunda quinzena de setembro de 2017, o professor universitário Mikhail Vieira de Lorenzi Cancellier, então com 30 anos, chegou ao apartamento do pai levando sua tese sobre o direito à privacidade, que ele havia defendido no ano anterior ao se tornar doutor em direito pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Luiz Carlos Cancellier de Olivo estava com tempo livre para reler o trabalho acadêmico do filho. No dia 14 daquele mês, ele havia sido preso e afastado do cargo de reitor da UFSC, acusado pela Polícia Federal de obstruir a investigação que teria descoberto um esquema milionário de desvio de verbas da universidade.

Solto no dia seguinte, ele se trancou em casa e evitava o assédio da imprensa. A monografia do filho foi a última que o reitor leu.

Nesta quarta-feira (2) completam-se dois anos da morte de Cancellier, que se atirou do último andar de um shopping center de Florianópolis. No bolso, trazia um bilhete: “Minha morte foi decretada quando fui banido da universidade”.

Mikhail, o filho, falou pela primeira vez sobre o caso em entrevista à reportagem, no escritório do seu advogado, Edward Carvalho, em Curitiba. Ele diz que teme ser preso pela Operação Ouvidos Moucos, a mesma que teve o seu pai como alvo. No dia 21 de junho, Mikhail foi denunciado pelo procurador da República André Stefani Bertuol, sob acusação de desvio de dinheiro público.

“Quando tu recebe um indiciamento e, sobretudo, uma denúncia, por maior que seja a evidência da inocência diante disso, você sempre tem medo do que pode acontecer”, diz Mikhail. “Bom, eu sou inocente, né? Mas é um julgamento, todo processo, que eventualmente tem uma metodologia que é diferente. Então é difícil não sentir medo.”

Mikhail foi denunciado por causa de três depósitos bancários feitos em sua conta em 2013 e que somam pouco mais de R$ 7.000. O dinheiro veio de Gilberto Moritz, professor da UFSC, amigo de Cancellier. Na ocasião, o filho do reitor tinha 25 anos e estudava em São Paulo. Vivia com mesada do pai.

A acusação diz que aquele dinheiro tinha origem em um esquema que desviava verbas de bolsa de estudo. Moritz e Cancellier teriam simulado a participação em atividades acadêmicas, e Mikhail seria beneficiário da fraude.

Ele diz que só soube dos repasses de Moritz em março de 2018, quando foi chamado a depor pelo delegado Nelson Napp, responsável pela Ouvidos Moucos. Questionado sobre as três transações bancárias, Mikhail não soube explicar.

“Eu tinha incapacidade verdadeira de explicar o depósito, porque eu morava em São Paulo, eu ganhava em torno de R$ 2.400 por mês [num escritório de advocacia], tinha aluguel, tinha todas as minhas contas. Meu pai me ajudava financeiramente”, disse.

“Se meu pai falasse: hoje vai ser depositado R$ 1.600 na sua conta, eu não ia atrás de saber, a princípio, se foi feito ou não foi feito exatamente por aquela conta”, disse. “Estava dentro do padrão do que eu recebia na época.”

O delegado concluiu que o fato de os três depósitos para Mikhail terem sido feitos após Moritz receber pelo projeto acadêmico evidenciava um esquema entre os professores, em que o filho de Cancellier era beneficiário.

Um ano e dois meses após o relatório policial, sem nenhuma nova prova, a Procuradoria endossou os argumentos dos policiais e denunciou Moritz e Mikhail por desvio de dinheiro público.

Em agosto, após a denúncia, a defesa de Gilberto Moritz protocolou sua justificativa para os repasses.

A manifestação diz que Moritz “nunca teve nenhuma relação comercial com ele [Mikhail], contudo a transferência bancária realizada no pequeno valor se deveu a um pedido de empréstimo do Prof. Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que provia seu filho naquela época em que era estudante”. O documento não diz se o empréstimo foi pago por Cancellier.

A defesa também rebateu as acusações de que Moritz teria simulado a participação em curso da universidade. “Nessa época inclusive elaborou apostila e materiais para o curso, ministrou aulas e foi avaliado pelos alunos, razão pela qual recebeu os 34 recursos mediante o desenvolvimento normal de seus trabalhos que o MPF afirma terem sido ‘trabalhos fictícios’”.

Mikhail diz que espera que a denúncia seja rejeitada pela 1ª Vara Federal de Santa Catarina após a declaração de Moritz. “Se o que me envolveu no processo foi uma pergunta para a qual eu não tinha resposta, mas que agora quem de fato poderia responder já deu a resposta a esta pergunta, eu não vejo mais o porquê de eu continuar fazendo parte desse processo”, diz Mikhail.

Caberá à juíza federal Janaína Cassol Machado decidir se Mikhail, Moritz e outros 11 denunciados se tornarão réus. Foi Janaína Cassol quem determinou a prisão de Cancellier, em 14 de setembro de 2017.

Após a decisão, a magistrada saiu de licença. Sua substituta, Marjoriê Freiberger, ao assumir o caso no dia seguinte, mandou soltar todos os presos, mas os manteve afastados da universidade.

A delegada que pediu a prisão de Cancellier, em 2017, foi Erika Mialik Marena, que até um ano antes integrava a chefia da Operação Lava Jato, em Curitiba. Foi ela que batizou a operação mais famosa do país.

Após prender o reitor, a delegada convocou a imprensa para uma entrevista coletiva. Nas redes sociais da Polícia Federal foi divulgado que o suposto esquema criminoso teria desviado R$ 80 milhões, o que depois foi desmentido pela própria instituição. Aquele era o repasse total das verbas para o programa de educação à distância. Mikhail criticou o midiatismo da operação.

“Com relação à investigação em si, eu acho que o que me parece é que talvez a maneira com que a divulgação é feita tem que ser questionada. Talvez não se preocupando com as pessoas que estão ali, só com o espetáculo da operação em si. O próprio fato de batizar operações e transformar isso nesse show assim, nesses programas, isso não só em relação a Ouvidos Moucos.”

Após as prisões, Erika Marena foi promovida para chefiar a Polícia Federal de Sergipe. No seu lugar assumiu Nelson Napp, que assinou o relatório final. Além de indiciar Mikhail, ele afirmou que o próprio reitor só não foi incriminado porque morreu. A única acusação de corrupção contra Cancellier eram justamente os três depósitos de Moritz na conta de Mikhail.

A investigação compreendeu o período de 2008 a 2017, mas Cancellier, que assumiu a reitoria em maio de 2016, foi o único ex-reitor acusado. Seus antecessores Alvaro Toubes Prata (2008 a 2012) e Roselane Neckel (2012 a 2016) não são alvos da operação. A explicação para isso é midiática, segundo Mikhail.

“Prender um ex-reitor não faz a carreira de ninguém. Prender um reitor faz. A investigação é cheia de falhas. Não dá para esperar coerência de uma coisa que começou falha, continua falha e terminou falha”, disse.

A Ouvidos Moucos investigou irregularidades em pagamentos e custeio de bolsas de estudo e até na locação de automóveis com motorista por professores e pessoas ligadas à universidade. Segundo os investigadores, os funcionários da UFSC formaram uma organização criminosa que desviava esses recursos e dividia o dinheiro entre eles. Segundo a acusação, essas pessoas também simulavam a participação em trabalhos acadêmicos para receber recursos.

Professor de direito, Mikhail diz que só leu o inquérito policial e a denúncia da Procuradoria nas partes em que é citado. Também afirmou que não segue o caso pela imprensa. “Eu não acompanhei muito. Eu tomei uma decisão. Eu moro na cidade, eu trabalho na universidade e eu, de alguma maneira, fui tentando me proteger de tudo para conseguir dar conta da minha vida. Diante de tanto sofrimento, de uma situação tão trágica, a maneira que eu encontrei para me preservar nisso e não me perder nesse sofrimento foi me afastando [do caso] o máximo que eu podia.”

Mikhail disse que o trauma da morte do pai lhe causou problemas psicológicos. “Eu recentemente fui diagnosticado com depressão reativa. Estou passando por tratamento, tomando antidepressivo e ansiolítico.”

Os últimos dias de vida de Cancellier foram ao lado de dois irmãos e do filho. Mikhail diz que foi para o apartamento do pai logo após ele ter sido libertado do presídio.

“Eu cheguei, e ele estava na varanda. Os dois irmãos dele, Acioli e o Júlio, meus dois tios, saíram para comprar comida. Ele me abraçou e disse que não iria me pedir desculpas porque ele não tinha que se desculpar por uma coisa pela qual ele não tinha responsabilidade. Ele estava muito animado nessa sexta-feira. Não no sentido do que aconteceu, evidentemente, mas ele imaginou que a coisa se resolveria de uma maneira mais rápida”, disse.

Naquele dia, pai e filho conversaram sobre o tempo na prisão, um assunto que não se repetiria nos dias seguintes. Cancellier disse que junto com os outros professores foi encaminhado a um presídio estadual, onde todos passaram por revista íntima. Ao chegar na penitenciária, foram hostilizados por outros presos. Dividiram cela entre eles, sem contato com outros detentos.

“No sábado ele já caiu num outro estado de espírito. Acordou muito abatido, sem querer sair de casa, a fala dele já estava muito diferente. Alguns amigos dele, professores da Medicina, encaminharam-no para uma psiquiatra. O diagnóstico era de depressão, impacto pós-traumático. Ele foi medicado”, contou Mikhail.

O filho de Cancellier disse que nunca soube que o pai já tivesse passado por algum tipo de tratamento psicológico antes da prisão. Havia uma preocupação de não deixá-lo sozinho. Acioli deixou sua casa no interior de São Paulo e passou a morar em Florianópolis com o irmão.

No final de semana antes do suicídio, os irmãos do reitor foram viajar. Convidaram-no para ir junto, mas ele recusou. O filho ficou fazendo companhia ao reitor.

“No domingo anterior [ao suicídio] ele passou o dia comigo, a gente almoçou. Ele pediu para ir para casa, eu o levei no final do dia. Naquela noite ele me ligou ainda, eu não atendi. Ele deixou uma mensagem na caixa postal. Falou que me amava e me admirava muito, disse coisas nesse sentido. Eu liguei para ele de volta, mas ele não atendeu mais”, disse.

Para Mikhail, naquele domingo o reitor estava planejando o suicídio. “Junto do corpo tinha o ingresso do cinema que ele tinha ido no dia anterior. O cinema no shopping em que ele se suicidou fica no último andar, então ele foi, presumo eu, imaginando alguma coisa nesse sentido”, disse.

“No dia seguinte eu estava na universidade. Eu não lembro quem me contou. Entraram uns dois ou três professores. Porque nesse meio tempo me ligou mais uma professora amiga dele, minha tia me ligou também. De repente apareceu muita gente”, disse.

“Na hora eu lembro que eu parei, só abaixei a cabeça e... na hora eu nem chorei. Até entender o que aconteceu... Eu lembro que eu falei ‘eu preciso respirar’”, disse. “Eu fui dirigindo em silêncio pensando ‘como é que pode?’. Quando eu cheguei na casa da minha tia, aí sim, eu não conseguia ficar em pé, chorei bastante, sentei, deitei. E já tinha que começar a decidir se vai ser enterrado, se vai ser cremado.”

Ele diz não ter dúvida sobre o motivo do ato cometido por Cancellier. “O meu pai vivia pela vida pública dele. Ele negligenciava em diversos aspectos a vida pessoal. A vida do meu pai era a universidade. Então, eu acho que duas coisas ele não suportaria: se tirassem a universidade dele ou se alguma coisa acontecesse comigo. E uma das duas coisas aconteceu”, diz.

Mikhail também julga que a morte do pai serviu para jogar luz no processo, que ele considera violento e injusto. “Se por um lado ele fazer o que fez era um pensamento de resolução dele com essas questões, ao mesmo tempo [era] de uma mensagem e de algum tipo de efeito público, sem dúvida nenhuma. Por causa da forma como foi feito, inclusive. Num local extremamente público, de uma forma extremamente violenta. Isso causa muito impacto, isso chama muita atenção, mais atenção ainda para o caso em si”, diz.

“Foi tudo muito violento. A prisão foi violenta, foi um mês de muita violência. Ele buscou uma morte violenta também. Ele responde violentamente a uma violência que ele sofreu.”

Ao final da conversa, Mikhail diz que pretende retomar a vida. “Que isso termine. Que eu consiga voltar para a minha vida com preocupações normais que um cara de 32 anos tem que ter. Sem ficar me preocupando com esse tipo de coisa. Mas tem uma sequela pessoal que vai fazer parte de mim, e essa eu acho mais difícil de terminar.”