Prisão de Jefferson: a lei vale também para amigos do presidente

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President of the Brazilian Labour Party, Roberto Jefferson gestures during a national convention of the Brazilian Labour Party, that declared support for Geraldo Alckmin of the Brazilian Social Democracy Party (PSDB) candidacy for the presidency of the republic, in Brasilia, Brazil July 28, 2018. REUTERS/Ueslei Marcelino
O ex-deputado Roberto Jefferson em evento de campanha em 2018. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Parecia mensagem de terrorista reivindicando um atentado.

Em vez do aguião do Estado Islâmico ou da Al Qaeda, era a bandeira do Brasil que ornamentava as paredes onde um ex-condenado da Justiça gravou um vídeo, com armas, chamando um embaixador de “malandro” e “macaco”.

Nada aconteceu.

Meses antes, o mesmo líder extremista, novamente com arma em punho, e rodeado com um cabo de enxada, um taco de beisebol e um chicote, já havia conclamado a população a se armar para combater o “Satanás que quer fechar igreja”. Era uma resposta em vídeo ao fechamento de igrejas durante a pandemia com um convite ao motim: os "comunistas" que querem fechar esses espaços deveriam ser "exorcizados".

A mira das armas não deixava muita dúvida sobre o sentido do exorcismo defendido em tom de ameaça.

Nada aconteceu.

Mais recentemente, um novo vídeo do extremista correu as redes. 

Ele agora ameaçava impedir a realização das eleições de 2022 caso o voto impresso não fosse aprovado pela Câmara. “Se não houver voto impresso e contagem pública de votos, não haverá eleição ano que vem”, disse ele, como se apontasse a arma, dessa vez, para a cabeça dos deputados desobedientes.

Em qualquer lugar do mundo, o autor dos vídeos já teria se enroscado com a polícia na primeira ameaça. Ele era claramente um risco a quem passasse à sua frente. 

Quem assistiu aos vídeos teve dúvidas se ele passaria em qualquer exame psicotécnico. Alguém daria um veículo para ele dirigir naquelas condições?

Mas o extremista no caso é dirigente de um dos principais partidos políticos de seu país, o PTB, e tem nas armas e na amizade com o presidente da República, a quem aderiu a todas as pautas de costumes, as provas de que tem costas largas e nada lhe faltará.

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Nesta sexta-feira 13, por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, o incendiário dirigente político acordou com a polícia em seu endereço. Antes de ser pego, Roberto Jefferson, o ex-deputado que denunciou o chamado “mensalão” após se sentir abandonado pelo governo da época durante uma investigação contra ele, correu ao Twitter para classificar a ação de “canalhice”.

A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão para apurar a suposta participação do dirigente em uma organização criminosa digital montada para desferir ataques à democracia. 

Dito assim, tanto os meios quanto os alvos parecem abstratos, como se fossem avatares de um videogame. Não são. 

As armas estavam há tempos apontados para o eleitor, que já não sabe o que poderá acontecer com ele se sair de casa para votar em outubro do ano que vem.

O que Jefferson postava impunemente em suas redes era um grande “salve geral” que faria inveja a qualquer líder de organização criminosa. Em seu caso, com traços de seita e messianismo.

O pedido de prisão, segundo informações do jornal O Globo, partiu da própria PF, que detectou a atuação de Jefferson em uma espécie de milícia digital montada de onde partiam ataques a ministros do STF e outras instituições.

A prisão é preventiva.

Jefferson, que deixou a cadeia em 2015 após ser condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, agora será novamente indiciado, acusado, denunciado e julgado formalmente. As provas abundam pelas redes sociais.

O resultado da apuração vai ajudar a traçar uma risca de chão na já mambembe democracia brasileira. Ao que parece, a Constituição não prevê imunidade a quem se protege na bandeira do Brasil e na amizade com o presidente para espalhar o que, torcido e retorcido, não passa de delinquência armada. 

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