"Na volta a gente vende": Paulo Guedes usa Petrobras para acalmar mercado

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Brazil's Economy Minister Paulo Guedes gestures during the launching ceremony of the National Green Growth Program, at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil October 25, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Adriano Machado/Reuters

Quantos anos você tinha quando descobriu que aquele papo de “na volta a gente compra” dos seus pais era só estratégia para ganhar tempo e conter o seu berreiro na frente da loja?

Foi mais ou menos o que fez Paulo Guedes ao tentar estancar a choradeira do mercado diante das presepadas ensaiadas na semana passada, com direito a furar o antes sacrossanto teto de gastos e endossar uma campanha antecipada à reeleição que durará 14 meses e 51,1 bilhões de contos de réis, numa conta baixa, para vitaminar o Auxílio Brasil.

Para os adultos ávidos por brinquedos novos, o ministro da Economia precisou só alterar a sentença: “na volta a gente vende”.

Ele falava sobre a Petrobras, menina dos olhos dos investidores que o presidente da República, cansado das cobranças pela escalada de preços dos combustíveis, quer passar pra frente e dizer que com ele não morreu.

Bolsonaro foi eleito prometendo privatizar até o ar. Paulo Guedes prometia zerar o déficit em tempo recorde. Bastava promover um grande leilão de ativos da União. Ele prometia também descolar com um amigo estrangeiro, por uma bagatela, 40 milhões de testes de covid —que nunca ninguém viu. Faltou vender terreno na Lua.

No começo do ano passado, o ministro declarou que era preciso fazer muita bobagem para que o dólar chegasse a R$ 5. Hoje ele está mais perto de R$ 6 do que dos R$ 5. Depois soube-se que ele era beneficiário direto da escalada, já que mantinha em um paraíso fiscal milhões em dólares —fortuna privada que só cresce a cada bobagem do homem público.

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Enquanto os engenheiros do governo usam massa tapa-furo para esconder o rombo no teto da casa —o que causou a demissão de quatro mestres-de-obras do Tesouro—, Guedes dizia em público que prefere tirar nota 8 no exercício fiscal a deixar a população faminta. Conversa para boi dormir e votar em seu candidato em 2022.

Pobre nunca foi prioridade para a turma. É só ver o que próprio ministro diz sobre eles a cada oportunidade —da bronca com a festa danada das empregadas que viajavam para a Disney até a proposta de alimentar famintos com restos podres de restaurantes.

O Posto Ipiranga está em campo para acalmar o mercado. Até aqui, conseguiu em partes. Vendo que as projeções para a economia para 2022 já entraram na rota da melancolia, Guedes e Bolsonaro passaram a acenar para a venda da Petrobras. A joia da coroa.

Algo como: se vocês se comportarem, podem ter um Natal mais gordo no ano que vem. Ou no outro. Com uma condição: antes será preciso privatizar os Correios. Um jogo mais do que travado. Era o famoso “na volta a gente vende”.

Foi o suficiente para conter o berreiro dos investidores e fazer o índice da petrolífera subir, enquanto os preços dos combustíveis eram reajustados para cima.

Só que Guedes é mau vendedor. Quer ver? Você compraria um automóvel hoje se o vendedor dissesse que daqui a três anos ele não vai valer nada porque todo o sistema de combustão estará defasado? Pois é.

Para mostrar a pressa em vender a estatal, e usar logo a riqueza guardada sem investimentos no pré-sal, Guedes argumentou que daqui a 30 anos ela não valerá mais nada. Quem iria passar as próximas décadas investindo em uma empresa com hora marcada para o negócio falir?

Guedes foi além. Gabou-se em público de que, em uma única fala (ensaiada) do presidente, as ações da empresa subiram e fizeram R$ 100 bilhões "brotarem do chão". Guedes ignorava ou fingia ignorar que o valor flutuante de uma empresa não se converte, ao fim do pregão, em dinheiro para o Orçamento.

O mais grave não é nem isso. O mais grave é assumir em público que, tal qual nossas mães, a ideia era só conter a pirraça da criança. Os infantes deslumbrados com a cenoura pendurada na testa foram assim dormir em paz.

Não é difícil enrolar uma criança ou um adulto com sede de ganhar dinheiro. Longe de ser um plano de fato (por pior que seja) a conversa serve como acalanto. Como outras promessas, ficou para o dia de São Nunca.

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