Jurados criticam processo 'quase aleatório' do Prêmio Jabuti

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Em 2020, a surpresa foi geral quando “Solo para vialejo”, da poeta Cida Pedrosa, foi eleito o Livro do Ano pelo Prêmio Jabuti no lugar de “Torto arado”, romance-fenômeno de Itamar Vieira Junior que ainda não saiu das listas de mais vendidos. Ano passado, nova surpresa: o infantil “Sagatrissuinorana”, de João Luiz Guimarães e Nelson Cruz desbancou “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório, vencedor da categoria Romance Literário e um dos favoritos a Livro do Ano. Em 2018 e 2019, o prêmio foi, respectivamente, para um livro poesia, “à cidade”, de Mailson Furtado Viana, e para uma obra de ciências humanas, “Uma história da desigualdade”, de Pedro H. G. Ferreira de Souza.

Segundo jurados de diferentes categorias do prêmio — concedido pela Câmara Brasileira do Livro — ouvidos pelo GLOBO, a eleição de tais títulos como Livros do Ano não expressa, necessariamente, um desejo do Jabuti de valorizar gêneros como a poesia ou a literatura infantil, que costumam ser eclipsados por romances e biografias, mas resulta de um processo de escolha “quase aleatório”.

Concorrem a Livro do Ano todos os vencedores das categorias que compõe os eixos Ficção (Conto; Crônica; Histórias em Quadrinhos; Infantil; Juvenil; Poesia; Romance de Entretenimento; Romance Literário) e Não Ficção (Artes; Biografia, Documentário e Reportagem; Ciências; Ciências Humanas; Ciências Sociais; Economia Criativa). Em cada categoria, os livros são avaliados por três jurados que atribuem notas, de 7 a 10, a três critérios estabelecidos previamente pela organização do prêmio. Os critérios têm todos o mesmo peso.

A avaliação segue regras determinadas pelo regulamento. Não é possível repetir notas nos diferentes quesitos para um mesmo livro ou nem dar a mesma nota no mesmo quesito para dois livros diferentes. Por exemplo: se um jurado der nota 9 a um romance literário por “técnica narrativa e estrutura”, não pode dar 9 ao mesmo romance por “desenvolvimento do enredo e dos personagens”. Também está proibido de dar 9 a qualquer outro romance por “técnica narrativa e estrutura”. Os livros que atingirem as maiores notas em suas categorias são declarados vencedores. Já a obra que alcançar a maior nota entre todos os vencedores é eleita o Livro do Ano e garante o prêmio de R$ 100 mil. Os ganhadores de cada categoria levam uma estatueta e R$ 5 mil.

— O Livro do Ano se tornou quase um sorteio, porque não se trata de uma comparação entre livros de diferentes categorias para ver qual foi o mais importante, da análise da qualidade ou do impacto que cada obra teve, mas de uma comparação de notas dadas por jurados diferentes a livros de natureza diferente — afirmou um dos jurados, reservadamente, ao GLOBO.

Cada uma das categorias segue critérios diferentes. Por exemplo: um dos quesitos avaliados em histórias em quadrinhos é a “interação entre imagens ou entre imagens e texto”; em títulos infantis, a capacidade de despertar “percepções, emoções e sensações”; em obras de ciências sociais, a “relevância, atualidade e transversalidade do tema”. No entanto, as especificidades de cada gênero não são levadas em conta na escolha do Livro do ano, que se resume, na definição de um jurado, em “apenas uma somatória fria de números”. Outro jurado descreve a atribuição das notas como “um verdadeiro quebra-cabeça”.

— Mas quem disse que “originalidade”, por exemplo, corresponde a um terço do valor de uma obra — questiona. — Essa pretensa objetividade, além de assinalar uma compreensão totalmente equivocada de como se dá a apreciação de uma obra literária, demonstra apenas uma desconfiança na honestidade dos jurados.

Diferentemente de outros prêmios literários, como o Prêmio São Paulo de Literatura e o Oceanos, os jurados do Jabuti não tem qualquer contato uns com os outros. Os jurados ouvidos pelo Globo afirma que seria positivo se eles pudessem se comunicar ao longo do processo e se reunir para debater as obras e decidir, conjuntamente, qual deve ser premiada. Segundo um jurado, a “predominância numérica” do Jabuti “poderia ser revista”.

— A exemplo de outras premiações, acho que os jurados deveriam se reunir na etapa final da votação para apresentar suas apreciações e discutir suas avaliações. Este confronto pode alterar significativamente a votação e é a chance que os jurados têm de produzir resultados mais próximos do que se entende como justo — disse.

A “predominância numérica” do Jabuti foi estabelecida para impedir injustiças e proteger o prêmio mais tradicional das letras brasileiras de polêmicas. O Livro do Ano estreou como categoria unificada em 2018. Antes, havia o Livro do Ano de Ficção e o Livro do Ano de Não Ficção. A maioria dos premiados eram romances, como “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum, e biografias, como “Estrela solitária”, sobre Garrincha, de Ruy Castro, e “As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos”, de Lilia Moritz Schwarcz.

Até 2018, os Livros do Ano de Ficção e Não Ficção eram escolhidos por votação de membros da indústria do livro entre os ganhadores das categorias de ficção e não ficção. À época, eram premiados primeiro, segundo e terceiro lugares. Em três ocasiões, os livros que não haviam ganhado em suas categorias foram eleitos Livro do Ano de Ficção: os romances “Budapeste” e “Leite derramado”, de Chico Buarque, em 2004 e 2010, e o infantil, “O menino que vendia palavras”, de Ignácio de Loyola Brandão, em 2008. Também em 2018, foi imposta a regra segundo a qual as notas devem variar entre 7 e 10. Em 2012, o crítico literário e editor Rodrigo Gurgel, jurado do prêmio, havia tentado manipular a votação ao dar notas baixas, como 0 e 1,5, a alguns romances — o objetivo era garantir que sua obra preferida fosse premiada.

Curador do Jabuti, Marcos Marcionilo afirma que o prêmio não fará “ouvidos moucos” às críticas. No entanto, ele reforça que, desde que foram instituídas, as mudanças nos critérios de escolha do Livro do Ano têm sido bem recebidas. O método de premiação, que envolve a soma dos votos, sem encontros do júri, é, segundo Marcionilo, adequado ao tamanho do Jabuti, que, na edição deste ano, teve 3.422 inscritos, 31% a mais do que no ao passado.

— Eleger, como Livro do Ano, textos tão distintos, como tem acontecido nos últimos anos, mostra a força do Jabuti e a diversidade da produção editorial brasileira. Em seus 63 anos, o Jabuti o nunca foi tão próximo dos leitores — diz. — O Jabuti é claro quanto a escolha de obras vencedoras. Os jurados são convidados a lerem o regulamento antes de assinarem o contrato de participação. Esse seria o momento de todas as reservas se imporem.

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