Procurador-geral libanês é indiciado por explosão no porto de Beirute

O juiz encarregado de investigar a explosão no porto de Beirute em 2020 indiciou, nesta terça-feira (24), um procurador-geral e três juízes por "homicídio", uma novidade na história do Líbano, disse à AFP um funcionário judicial.

Após uma pausa de mais de um ano, e apesar das pressões políticas, o juiz Tarek Bitar decidiu na segunda-feira retomar a investigação sobre a explosão, que deixou mais de 200 mortos e 6.500 feridos e destruiu parte da capital em agosto de 2020.

O juiz decidiu indiciar oito novas pessoas, incluindo o procurador-geral, Ghassan Oueidate, e três juízes, perante o Tribunal de Cassação, acusados de "homicídio, incêndio criminoso e sabotagem", disse a fonte judicial.

Em resposta a esta acusação, a Promotoria libanesa rejeitou nesta terça-feira todas as decisões do juiz Bitar e disse a ele que não pode continuar com seu trabalho investigativo, segundo um documento obtido pela AFP.

A grande explosão de 4 de agosto de 2020 foi causada pelo armazenamento sem precauções de centenas de toneladas de nitrato de amônio em um depósito no porto de Beirute.

Segundo o responsável judicial, o procurador-geral da República, Oueidate, supervisionou em 2019 uma investigação dos serviços de segurança sobre algumas fissuras no depósito onde se encontrava o nitrato de amônio.

Na segunda-feira, vazaram os nomes de duas autoridades indiciadas pelo juiz Bitar: o diretor de Segurança Geral, Abbas Ibrahim, considerado próximo ao poderoso movimento xiita Hezbollah, e o chefe de Segurança do Estado, Tony Saliba, próximo ao ex-presidente Michel Aoun.

No total, 13 pessoas foram indiciadas, entre elas cinco responsáveis anteriormente indiciados pelo juiz Bitar, incluindo o ex-primeiro-ministro Hassan Diab.

Grande parte da população libanesa atribui a explosão à negligência e à corrupção da classe política, também acusada pelos familiares das vítimas de prejudicar a investigação para evitar processos.

Nos últimos meses, as autoridades libanesas tentaram retirar o juiz Bitar, tentando nomear outro juiz favorável a elas para substituí-lo. Ao mesmo tempo, vários líderes políticos que seriam interrogados na investigação apresentaram denúncias contra ele.

O juiz Bitar também foi confrontado com uma campanha do movimento Hezbollah, que domina a vida política libanesa.

O jornal Al Akhbar, próximo ao Hezbollah, publicou nesta terça-feira que o juiz "enlouqueceu" e acusou Bitar de agir "com base em ordens dos Estados Unidos e com apoio judicial europeu".

Bitar se reuniu na semana passada com dois juízes franceses, que viajaram para Beirute como parte de uma investigação aberta na França, já que entre as vítimas havia cidadãos deste país.

O porta-voz do Departamento de Estado disse por sua vez que os Estados Unidos pedem às autoridades libanesas "que realizem uma investigação rápida e transparente", de acordo com um tuíte publicado nesta terça-feira pela embaixada dos EUA em Beirute.

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