Produções de moradores da Zona Oeste valorizam os bairros da região e sua história

Um movimento atípico de câmeras, refletores e equipe de filmagem ganhou as ruas de Paciência, na Zona Oeste do Rio, no fim do ano e chamou a atenção dos moradores. Eram as gravações do documentário “Barro e asfalto”, longa-metragem sobre a história de um desafio de futebol que se tornou tradição no sub-bairro Sete de Abril nas últimas seis décadas e cujo surgimento se confunde com a trajetória do lugar. O estranhamento da vizinhança fazia sentido. Pouco retratada nas telas, a região — que engloba ainda bairros como Campo Grande, Santa Cruz, Bangu e Realengo — começa a formar sua própria filmografia por iniciativa de diretores e roteiristas locais.

— A importância de fazer um filme como esse é que a gente sempre ouve e vê as histórias das periferias e das favelas sendo contadas de outra forma, por outras pessoas, e como entretenimento para o mercado. Nós que somos do território contamos a história do lugar e dos personagens locais que, muitas vezes, os próprios moradores desconhecem. É também uma forma de valorizar a população que construiu essa história — diz o diretor e roteirista de “Barro e asfalto”, Paulo Gomes, cria da Zona Oeste que há cerca de dez anos projetava filmes no muro de casa, iniciativa que se desdobrou no projeto “Cine Rua Paciência”, e ensinava os jovens da comunidade a filmar e contar suas próprias histórias.

O longa de Paulo Gomes vem sendo gestado há quase dez anos e ganhou impulso após o diretor vencer edital da RioFilme e se associar a uma grande produtora, a Media Bridge, responsável pela série e pelo filme “Chacrinha, o velho guerreiro”, de 2018. Iniciativas de outros diretores, em outros bairros, jogam as lentes para a riqueza de temáticas e personagens da região.

Artistas que nasceram ou despontaram para a música na Zona Oeste, como Elza Soares, Jotabê, Jorge Aragão, Tiãozinho da Mocidade, Zeca do Trombone, Leci Brandão e Nilze Carvalho são os protagonistas de “Samba do desterro”, em fase de finalização pelo diretor Marcelo Gularte, morador de Realengo. O filme é feito em associação com o Cinemão, e o plano é ficar pronto até abril, a tempo de percorrer o circuito dos festivais, incluindo o de Cannes.

— A Zona Oeste tem uma riqueza, um patrimônio material e imaterial muito pouco explorado. Nosso objetivo, por intermédio desse filme, é colocar em relevo, em evidência, um pouco dessa grandiosidade que está presente na arquitetura, nos costumes, nos hábitos e nas tradições da região. Acredito que, com essa produção, estaremos valorizando o que temos de melhor — argumenta Marcelo Gularte.

O MC Bob Rum, de Santa Cruz, responsável por um dos grandes clássicos do funk, o “Rap do Silva”, que despontou na década de 1990, é o personagem central de “A história de um Silva”, lançado em 2019 por Gularte e disponível no cardápio da Amazon. Sempre com o foco na região, ele já dirigiu os curtas “MC Marechal”, em 2013, e “Bangu, território em transição”, de 2010.

O bairro tema desse último curta é também filmado pela lente do morador da Vila Kennedy, Carlos Santos, no filme “Bangu, do progresso industrial à alvorada do futebol”, de 2022. O documentário de 30 minutos de duração mostra o desenvolvimento do lugar a partir da chegada da fábrica de tecidos Bangu, em 1889, e a fundação do Bangu Atlético Clube, em 1905, por um grupo de operários brasileiros e ingleses.

— É muito importante a gente falar um pouco mais sobre a Zona Oeste. Bangu, por exemplo, tem uma história riquíssima. Dom Pedro II passava por aqui (com destino à Fazenda Santa Cruz). A fundação do bairro também foi muito importante, com a presença dos ingleses, e da fábrica (de tecidos, onde hoje fica um shopping). Bangu não tem só calor — defende Carlos Santos.

O filme, que teve patrocínio do governo do estado, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, está disponível no YouTube, e pode ser assistido gratuitamente.

— Não pude colocá-lo em outras plataformas, por questões contratuais de patrocínio — diz o diretor.

Outra produção, essa mais antiga, que retrata personagens de uma cultura tipicamente da Zona Oeste é “Carnaval, bexiga, funk e sombrinha”. Lançado em 2006, o documentário dirigido por Marcus Faustini, atual secretário municipal de Cultura do Rio, é centrado na figura dos bate-bolas, personagens populares no carnaval da região.

A RioFilme, órgão da prefeitura, informou que desde o começo da atual gestão, em 2021, está atenta às demandas da Zona Oeste. Um dos projetos é abrir um cinema na região, onde foram filmadas 127 produções em 2022. Nessa conta, estão incluídos Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá.