Produtor comemora exibição de 'Amor estranho amor': 'Com essa alforria, ele volta a ter vida'

Carlos Helí de Almeida
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Vez por outra, a filha de oito anos de Aníbal Massaíni Neto toca no assunto:

– Ela chega e pergunta: “Pai, tão dizendo lá na escola que foi você quem produziu o filme da Xuxa, é verdade?” – diz, às gargalhadas, o produtor de “Amor estranho amor”, o filme “proibido” de Xuxa Meneghel lançado em 1982. – Respondo que, na escola, eles têm que ver é “Independência ou morte” (1972, outra produção de sua Cinearte).

Após décadas vetado por um acordo judicial com Xuxa, o filme que levou mais de 1 milhão de pessoas ao cinema em 1982 e deu um Kikito de melhor atriz a Vera Fisher, finalmente poderá ser visto novamente. O Canal Brasil exibe o famoso drama erótico às 0h30 de sexta-feira

— Achei estranho que a ação tenha ocorrido na época, uma tentativa de impedir a circulação de um produto cultural no início da redemocratização. — lamenta Massaíni.— Já vivemos tempos de censura e foi muito desagradável. A própria Xuxa tem feito declarações públicas mais amenas sobre o filme, que o considera de bom nível.

'Quem não viu, veja'

Dirigido por Walter Hugo Khouri (1929-2003), "Amor estranho amor" é protagonizado por Tarcísio Meira e Vera Fischer. Mas anos mais tarde se tornaria o "filme da Xuxa", quando a ex-modelo foi entronada “Rainha dos Baixinhos” graças ao programa infantil “Xou da Xuxa” (1986-1991). No filme, ela interpreta uma prostituta de 15 anos e participa de uma cena erótica com um garoto de 12. E, de fato, recentemente Xuxa mudou sua atitude — numa entrevista ao "Fantástico", no fim de 2020, incentivou que as pessoas assistam à obra.

“Quem não viu o filme, por favor, veja”, recomendou Xuxa, hoje aos 57 anos. “Porque esse filme fala de uma coisa muito atual, que é a exploração infantil, isso é a realidade de muita gente. Então, antes de as pessoas me criticarem, as pessoas deveriam saber que isso existe, diariamente, nesse país e no mundo todo, mas, principalmente, nesse país. Muitos meninos e meninas são vendidas, vendidos e vendidas para políticos, para pessoas que dizem que têm poder, então, isso é muito importante as pessoas falaram, sim, desse filme.”

"Amor estranho amor" saiu de circulação em 1992, quando Xuxa conseguiu na Justiça o embargo do lançamento em VHS e, em seguida, negociou seus direitos em cinema. Na ação, ela alegava que a comercialização em homevideo não fazia parte do contrato. Já o acordo posterior previa uma renovação anual, em troca de uma contrapartida de US$ 60 mil. Em 2018, o acordo foi extinto por iniciativa da Xuxa Produções e, desde então, Massaíni começou a fazer planos para relançar o filme.

– A cláusula de renovação automática deixou de ser interessante para eles, devolvendo assim os direitos para a Cinearte em todos os meios, excetuando-se o videocassete, que foi o motivo original da ação – entende o produtor, que não acredita em novas ações judiciais. – Não vejo amparo legal para recorrerem ou reabrirem o caso.

Bordel frequentado por políticos

“Amor estranho amor” é ambientado em 1937, às vésperas da instalação do Estado Novo, e tem como cenário principal um bordel de luxo de São Paulo, frequentado por políticos da época. Na trama, Xuxa interpreta Tamara, ninfeta recém-chegada do Sul que tenta seduzir, seminua, um menino de 12 anos (de pijama), vivido pelo ator Marcelo Ribeiro. O garoto é filho de Anna, uma das prostitutas mais experientes do estabelecimento, interpretada por Vera Fischer.

– A cena de sedução com a Xuxa tem um contexto histórico, de costumes. – observa Massaíni. — Há uma disputa de poder naquela casa, tanto político, porque ali se reúnem figuras para celebrar um golpe de Estado, quanto pessoal. A Anna é a predileta do presidente do estado de São Paulo, e a Tamara, chega do Sul para ser oferecida ao presidente do estado de Minas Gerais. Há uma rivalidade entre elas.

Segundo o produtor, a partir da instauração do processo, “Amor estranho amor” ficou reduzido ao filme “em que Xuxa seduz um menor de idade”.

– Durante quatro anos, a tal cena de sedução da Xuxa passou por todos os cinemas com a maior naturalidade, sem alarde nenhum. — relembra. — Só ganhou a proporção que ganhou a partir da ação, em detrimento das outras qualidades do filme. Foi prejudicial para muitos, inclusive os outros atores. Por isso, planejamos um relançamento bem ordenado e pensado, sem sensacionalismos, para dar uma carreira mais digna ao filme.

A apresentadora, que na época namorava o jogador Pelé, participou de todos os eventos de lançamento do longa. Chegou inclusive a participar da maratona de promoção de “Amor estranho amor” no Festival de Cannes, onde o filme de Khouri foi negociado para mais de 20 países.

– Nunca pensamos em exibi-lo na TV, na época, porque entendíamos que o filme continuava a ter uma resposta muito boa nas salas. – recorda o produtor, que agora pretende apresentá-lo a novas gerações. – Ele foi relançado em 1986, na esteira de “Eu”, outro filme do Walter Hugo Khouri com o Tarcísio Meira. O ator fazia muito sucesso na época com a novela “Roda de fogo”, na qual interpretava um personagem com comportamento semelhante do filme. Na época, “Amor estranho amor” vendeu mais de um milhão de ingressos. Com essa alforria, ele volta a ter vida.