Produtora de "kit Covid" bancou anúncios de associação pró-tratamento precoce

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Antônio Jordão, coordenador da associação Médicos Pela Vida, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), em setembro de 2020
Antônio Jordão, coordenador da associação Médicos Pela Vida, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), em setembro de 2020
  • A farmacêutica Vitamedic bancou a publicação em jornais de anúncios pró-tratamento precoce

  • A empresa aumentou as vendas de ivermectina em 1.230%, segundo dados enviados à CPI da Covid

  • A associação por trás do anúncio compõe o chamado "gabinete paralelo" do governo Bolsonaro

A farmacêutica Vitamedic bancou a publicação em jornais de anúncios da Associação Médicos pelo Brasil em defesa do chamado tratamento precoce, com medicamentos ineficazes no combate ao coronavírus.

A Vitamedic é uma das principais produtoras de ivermectina do país. Em dados enviados à CPI da Covid e publicados pelo jornal Folha de S.Paulo, a farmacêutica informou ter aumentado a venda de caixas do medicamento em 1.230%, passando de 5,7 milhões em 2019 para 75,8 milhões em 2020.

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Segundo reportagem da Folha, a empresa informou à CPI o total de vendas de caixas de Ivermectina de janeiro de 2020 a maio de 2021 e o preço médio por caixa. Fazendo a conta, estima-se que a empresa tenha arrecadado R$ 734 milhões só com esse medicamento do "kit Covid" no período.

Os dados do patrocínio da campanha chegaram à CPI após requerimento do senador Humberto Costa (PT-PE) aos veículos de comunicação, no dia 30 de junho. No ofício, o parlamentar pediu que fossem informados quem solicitou a publicação do informe "Manifesto pela Vida" e o valor dessas campanhas.

Os documentos mostram que a Vitamedic foi a contratante e responsável pelo pagamento. Em dois jornais, Zero Hora e O Globo, os anúncios custaram R$ 217.295,05. Na Folha, o anúncio saiu por R$ 78.080,62. Os outros veículos ainda não enviaram os dados à comissão.

Dias antes de os anúncios serem publicados nos jornais, a Vitamedic havia divulgado nota rebatendo a farmacêutica Merck (MSD no Brasil), produtora inicial do medicamento. A Merck afirmou que não há evidências pré-clínicas nem clínicas de eficácia da ivermectina no combate à Covid.

A associação Médicos pela Vida mantém um site favorável ao tratamento precoce e alguns de seus integrantes compõem o chamado gabinete paralelo, grupo de aconselhamento informal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), um dos principais defensores no Brasil de medicamentos sem eficácia contra a Covid-19.

O oftalmologista Antônio Jordão, que assinou o termo de responsabilidade para que os anúncios pudessem ser veiculados, apareceu ao lado de Bolsonaro em uma reunião em setembro de 2020. Foi nesse evento que o virologista Paolo Zanotto deu a sugestão de criar uma espécie de "gabinete das sombras" para tratar da resposta oficial à pandemia.

A médica Nise Yamaguchi também foi uma das participantes do evento. Em grupos de médicos defensores do tratamento precoce, circula um vídeo gravado por ela sugerindo que as pessoas procurem um médico a favor do tratamento precoce através do site da associação Médicos Pela Vida.

No site, a associação diz que o movimento é composto por cerca de 15 mil médicos. No entanto, são cerca de 300 profissionais, com especializações variadas, que deixam seus contatos para quem tiver interesse em realizar consulta presencial ou teleatendimento.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) afirmou, em nota à Folha de S.Paulo, que não tem conhecimento do patrocínio da campanha nos jornais. Disse ainda que, por ser instância judicante em grau de recurso, não comenta casos concretos.

"Denúncias de irregularidades podem ser apresentadas no Conselho Regional de Medicina do estado onde ocorreu a situação. O CRM procederá à apuração necessária, com os eventuais desdobramentos, como abertura de sindicância e de processo ético-profissional, em caso de confirmação da suspeita."

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