Produtores de carne sul-americanos não sentem ameaça das proteínas alternativas

Por Luis TORRES DE LA LLOSA
Bife vegetal é apresentado no Salão Internacional de Alimentação (Sial) de Paris, em 20 de outubro de 2014

A moda do consumo de proteínas "alternativas", impulsionada pela indústria de hambúrgueres vegetais, queijo e farinhas de alga, não basta para tirar o sono dos produtores de carne bovina sul-americanos, de acordo com participantes da região no Salão Internacional de Alimentação (Sial) de Paris.

No Sial, representantes de países como Brasil, Argentina e Uruguai argumentaram que, na hora de comer, nada substituirá um bife suculento.

Até 2050, a população mundial aumentará aproximadamente 30% e, para que todos tenham acesso a proteínas, será necessário produzir mais com menos energia e menos água, além de racionalizar o uso de terras dedicadas à pecuária e à agricultura.

A indústria de proteínas "alternativas" aposta nesta revolução para tentar ganhar espaço no mercado.

O Sial, principal salão mundial de alimentação, busca antecipar as tendências gerais. Nele, o grupo francês Lactalis, especializado em laticínios, apresentou uma nova gama de espetinhos de queijo "para assar" à base de leite de ovelha e a empresa Triballat Noyal, da Grã-Bretanha, trouxe ao salão "churrascos de queijo".

Já a italiana Sojasun propôs hambúrgueres vegetais de cozimento rápido no micro-ondas e bifes de soja que se mantêm conservados por seis meses. Dos Estados Unidos, a Gardein apresentou filés de peixe vegetarianos à base de soja e azeites de microalgas ricas em Ômega 3.

Outros - incluindo a ONU - defendem o consumo de insetos como solução para um planeta que, em três décadas, terá que alimentar mais de nove milhões de pessoas.

Segundo Nutrikéo, consultora em estratégia alimentar, o mercado de proteínas vegetais, que representava 7,8 bilhões de dólares em 2013, poderá superar os 11 bilhões em 2018, o que significaria um aumento de 40% em cinco anos.

'Caviar do futuro'

Esses esforços não têm interessado os produtores de carne, que minimizam o alcance das tendências que, segundo eles, dizem respeito a um setor reduzido do mercado.

"Até certo ponto da vida, as pessoas comem comida, mas depois começam a comer conceitos", ironiza Fernando Sampaio, diretor executivo da Abiec, Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne.

Com um aumento de 288% nas exportações de carne bovina em menos de dez anos, o Brasil mantém sua posição de líder mundial do setor com vendas totais de 6,6 bilhões de dólares em 2013, o que mostra um crescimento de aproximadamente 13,9% em relação ao ano anterior.

O Brasil está voltado para o mercado asiático e "a China é uma meta estratégica", disse Sampaio, que não teme uma substituição por outras proteínas.

Arturo Llavallon, do Instituto de Promoção da Carne da Argentina (IPCA) tem a mesma opinião, embora admita que a União Europeia tenha reduzido o consumo de carne. Essa perda, no entanto, é amplamente compensada pelo surgimento de outros mercados.

Por essas razões, a Argentina, que deixou de ser uma grande exportadora de carne para destinar cerca de 94% da produção ao consumo interno, aposta agora na diversificação de mercados para "voltar a se posicionar como fornecedora de carne de qualidade que sempre foi", explica Lavallon.

"As proteínas animais são fundamentais para o ser humano que, à medida que aumenta seu nível econômico, as consome mais. Começam com frango, depois porco e terminam com carne bovina", afirma o argentino.

Os adeptos das proteínas alternativas argumentam que a produção de carne custa muito ao meio ambiente, principalmente por causa do metano emitido pelos animais e pelo uso indiscriminado de água, assegura Lucie Lecestre, do grupo Nutrikeo.

Os produtores de carne rejeitam essa premissa. "Estamos trabalhando com a FAO com o intuito de mostrar a sustentabilidade desse setor", disse Lavallon.

Impulsionado pela produção de 540 mil toneladas de carne bovina em 2013 e pela exportação de aproximadamente 70% desse volume - principalmente para toda a União Europeia, China e América do Norte -, o Uruguai marcou forte presença na Sial. O pavilhão do país tem dois andares, incluindo um restaurante no piso superior que oferece cortes gourmet.

Fernando Pérez Abella, vice-presidente do Instituto Nacional de Carnes (Inac) do Uruguai, aposta nessa linha para que a indústria da carne vermelha prospere, agradando consumidores cada vez mais exigentes. "A carne bovina será o caviar do futuro", aposta.