Professor de jiu-jítsu morto no Catumbi havia realizado sonho de ser pai há três meses

Rafael Nascimento de Souza
Os pais de Samuel choram no enterro.

Nascido e criado no Morro da Mineira, no Catumbi, Zona Central do Rio de Janeiro, o professor de jiu-jítsu Samuel Peixoto da Silva, de 25 anos, havia acabado de realizar um sonho: ter um filho, o pequeno Benjamin. Pai há apenas três meses, o rapaz viu que só as aulas de artes marciais não iriam suprir as necessidades da criança que havia acabado de vim ao mundo. Então, passou a dar aulas durante todo o dia, e a noite fazia uma extra como mototáxi. Na madrugada de segunda-feira, ele foi um dos três mortos no Morro da Coroa, no mesmo bairro, durante uma guerra entre facções rivais.

Filho mais velho do balconista Edmar Peixoto da Silva, de 69 anos, e da empregada doméstica Sônia Peixoto da Silva, de 65, o rapaz foi criado em uma igreja evangélica. Ele gostava de pregar a palavra de Deus.

Aos 14 anos, juntos com os quatro irmãos, Samuel foi matriculado em uma escola de judô. Tomou gosto pelo esporte e decidiu que iria se profissionalizar em artes marciais.

Ao longo dos anos ganhou diversas lutas — uma delas em apenas 48 segundos — e há cerca de dois anos se tornou professor na escola onde o seu sonho havia começado: no projeto “Discípulos de Cristo”, ministrado na Igreja Assembleia de Deus Cidade Nova - Congregação Catumbi 2.

Com alunos de idades variadas, Samuel era a sensação entre os mais de 50 participantes. ‘’Garoto responsa”, como os chamavam.

No último domingo, após o término do culto, o rapaz foi para casa — pegou o pequeno Benjamin no colo, brincou, deu um beijo na mulher, uma estudante de 17 anos, sentou na moto e partiu para mais um dia de trabalho. No entanto, ele não imaginava que horas depois seria mais uma das vítimas da guerra entre traficantes.

Ao voltar para casa, por volta de 2h da manhã de segunda-feira, na entrada do Morro da Mineira, o rapaz se deparou com uma intensa troca de tiros. Baleado nas costas, Samuel chegou a pedir a Deus para não morrer — queria ver o filho crescer.

Socorrido por um morador que passava pelo local e levado para o Hospital municipal Souza Aguiar, no Centro, o professor não resistiu aos ferimentos e morreu.

O sonho de Samuel terminou onde havia começado há 11 anos. O rapaz foi velado na igreja onde iniciou o judô.

Ele não tinha passagens pela polícia e nem envolvimento com o tráfico de drogas.

Os últimos momentos de Samuel foram relatados à mãe dele por uma pessoa que o socorreu para o Hospital municipal Souza Aguiar, no Centro. Depois de trabalhar no bico de mototaxista, Samuel seguia para casa, no Morro da Mineira, quando ficou no meio do fogo cruzado na Coroa. As circunstâncias do início da ação ainda não estão claras, mas ele disse a essa testemunha que o levou para o hospital que pediu para não ser baleado, porém levou o tiro nas costas quando se virou para continuar o caminho em sua moto. Ferido, ainda tentou se esconder atrás de uma caçamba de lixo, onde ficou pedindo socorro e, assim, despertou a atenção do morador.

— Ele ainda disse que era trabalhador, mas o rapaz deu um tiro nas costas do meu filho. Está sendo uma coisa dolorosa. Cheguei a ver o sangue dele no chão — lamentou a mãe, que reproduziu o relato da testemunha.

Antes do sepultamento, nesta teça-feira, no Cemitério do Catumbi, acompanhado por cerca de 300 pessoas, amigos fizeram uma homenagem — com fotos e vídeos do jovem — na Igreja Assembleia de Deus Cidade Nova, onde nasceu o projeto social em que Samuel dava aulas de jiu-jítsu. Alunos vestindo quimonos choravam muito.

— A minha estrutura está muito abalada. Eu perdi um filho. A segurança da nossa sociedade está corrompida. Não temos segurança. Agora, está lá o meu filho. Como vou encarar isso daqui para frente? A gente mora na comunidade. E não tem só bandido lá — afirmou o pai, o balconista Edmar Peixoto da Silva, de 69 anos.

A Polícia Militar informou que não havia operação na hora do confronto. Além de Samuel, a Delegacia de Homicídios investiga a morte de Yanca Lorrana Marques Rodrigues dos Santos e de Fernando da Costa Cavalcante.