Professor de jiu-jitsu é um dos mortos na guerra do Morro do São Carlos

Rafael Nascimento de Souza

RIO — "Quando ele foi baleado e socorrido, o meu marido orava e cantava um hino evangélico. Ele foi atingido quando voltava de um (trabalho) extra de mototáxi". O relato é da estudante Ana Beatriz Pereira Rodrigues, de 17 anos, esposa do professor de jiu-jitsu Samuel Peixoto da Silva, 25, um dos três mortos na guerra de facções no Morro da Coroa, no Complexo do São Carlos, que aconteceu no final da noite desse domingo e começo da madrugada desta segunda-feira. Samuel foi alvejado nas costas, levado ao Hospital municipal Souza Aguiar, mas não resistiu aos ferimentos. Além dos mortos, o confronto deixou outras quatro pessoas feridas.

De acordo com as primeiras informações, traficantes rivais tentaram invadir a Coroa. A Polícia Militar tentou evitar e houve um intenso tiroteio. Samuel, que era morador da Morro da Mineira, teria ficado no meio do fogo cruzado quando acessava Rua Van Erven para chegar em casa — depois de fazer um bico de mototáxi. Baleado nas costas, o professor foi socorrido por um morador da região.

— Ele estava voltando para casa, após um trabalho extra, quando houve o confronto e ele foi atingido — contou a estudante, que lembra: — Ele estava entrando na Mineira. Um senhor, que mora ali perto, socorreu o meu marido. Hoje, ele me disse que quando o levava para o hospital, o Samuel foi cantando hinos de louvor e orando — completou Ana Beatriz, que estava com o professor há mais de dois anos.

O homem - que dava aulas para crianças carentes da comunidade em um projeto social - deixa um filho de três meses.

Além de Samuel morreram Yanca Lorrana Marques Rodrigues dos Santos e Fernando da Costa Cavalcante. Os feridos são: Pedro Henrique Pena de Souza, atingido no peito; Júlio César, baleado na barriga; Tarcísio Lustrosa, ferido na cabeça; e um homem ainda não identificado.

Todos os corpos ainda estão no Hospital Souza Aguiar. A Secretaria municipal de Saúde não informou o estado de saúde das vítimas que sobreviveram.

Na manhã desta segunda-feira o clima era de aparente tranquilidade no Complexo do São Carlos. Na rua Itapiru o comércio funciona normalmente e os pedestres andavam tranquilamente. Não foi possível ver o reforço da Polícia Militar na região.

De acordo com o delegado Daniel Rosa, titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), guerra de facção é a principal linha de investigação - de um inquérito que foi aberto nesta manhã.

Segundo Rosa, neste primeiro momento os investigadores estão tentando identificar os mortos e entender o que aconteceu na noite desse domingo na comunidade.

— Estamos trabalhando para descobrir que são esses mortos e posteriormente entender o que aconteceu. Apuramos se eles tem envolvimento com o trágico e o que causou essa disputa, a dinâmica do caso é o que estamos buscando. Após isso vamos identificar e qualificar os autores das mortes — salientou o delegado.

Daniel Rosa pede que a população passe informações sobre a guerra de facções no Complexo do São Carlos. Até agora, ninguém procurou a Polícia Civil para denunciar o que aconteceu. — Pedimos que a população nos ajude denunciando o que está acontecendo nessa localidade. O telefone da delegacia é o (21) 2333-6393. O anonimato é garantido — completou Rosa.