Professor pode ter opinião fora da sala de aula, diz ministro da Educação

Weintraub afirmou que irá analisar o conteúdo dos vídeos compartilhados. (Foto: Marcos Corrêa/PR)
Weintraub afirmou que irá analisar o conteúdo dos vídeos compartilhados. (Foto: Marcos Corrêa/PR)

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, defendeu filmar professores em sala de aula e afirmou que eles podem ter liberdade para tecer comentários e ter opiniões fora da sala de aula.

As informações são do jornal O Estado de São Paulo.

Weintraub disse ainda que irá analisar o conteúdo dos vídeos compartilhados nas redes sociais neste domingo (28) pelo presidente Jair Bolsonaro e por seu filho Carlos Bolsonaro para avaliar se houve alguma irregularidade pelos educadores.

“Não incentivo ninguém a filmar uma conversa na rua, mas elas têm direito de filmar. Isso é liberdade individual de cada um. Vou olhar os casos com calma. Não faremos nada de supetão”, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo

“Claro que ele pode fazer comentários e pode ter sua opinião. Se ele fala qualquer coisa no intervalo, está no direito dele. Se a aula foi boa, o aluno aprendeu, não temos nada com isso”, completou.

O ministro ressaltou que, enquanto era professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), sempre permitiu que seus alunos gravassem as aulas e fotografassem a lousa.

“Pelo que me foi descrito, o dinheiro do contribuinte não estava sendo gasto da melhor forma. Se eu tivesse pagando por uma aula dessas, eu me sentiria lesado. Agora, vamos olhar com calma e analisar dentro da lei o que pode ser feito, respeitando professores, alunos e pagadores de impostos”, disse.

O VÍDEO

As declarações do Weintraub foram motivadas por um vídeo compartilhado por Bolsonaro, no Twitter, com a legenda “professor tem que ensinar e não doutrinar”. Ele mostra uma aluna questionando uma professora sobre críticas que teriam sido feitas por ela ao governo, ao projeto “Escola sem Partido” e ao guru bolsonarista, Olavo de Carvalho.

‘DOS DOIS LADOS’

Após o vídeo, Bolsonaro (PSL) voltou a criticar a suposta doutrinação que vê sendo praticada por alguns professores no Brasil e defendeu que, se houver partido nas escolas, "que seja dos dois lados."

As declarações foram feitas ao chegar à casa de seu filho mais velho, o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), em Brasília, por volta de meio-dia. "Nós queremos escola sem partido, mas, se tiver partido, que seja dos dois lados", afirmou. "Não pode ter um lado só na sala de aula. Isso leva ao que nós não queremos."

Mais cedo, ele havia publicado, em sua conta em uma rede social, um vídeo, gravado por uma estudante, em que uma professora chamava o polemista Olavo de Carvalho de "anta" e de "bosta".

Na postagem, a aluna acusa a docente de ter dedicado 25 minutos à "opinião política partidária" e de ter criticado a escola sem partido.

"Eu não estou pagando cursinho para ouvir sua opinião político-partidária", disse a estudante no vídeo, que não tem data e local identificados. "Eu estou pagando cursinho para ter aula de gramática."

A aluna afirmou ainda que vai gravar e expor todas as aulas da professora na internet. Em novembro, recém-eleito presidente, Bolsonaro incentivou estudantes a gravarem as classes para combater a "doutrinação ideológica" nas instituições de ensino.

O vídeo foi divulgado no sábado (27) na página do movimento Escola sem Partido, que atribuiu a gravação à estudante Tamires de Paula, 23, secretária-geral do PSL de Itapeva (SP) e que se define na rede como "ativista politicamente incorreta".

No Twitter, a jovem costuma divulgar postagens a favor de Bolsonaro e com críticas à UNE (União Nacional dos Estudantes).

Em abril do ano passado, ela chegou a declarar que seria pré-candidata a deputada estadual por São Paulo. No site do TSE, no entanto, consta que ela renunciou à candidatura.

O ministro da Educação Abraham Weintraub já defendeu um expurgo do "marxismo cultural" nas universidades. Antes mesmo da posse de Bolsonaro, ele e seu irmão Arthur foram à Cúpula Conservadora, evento idealizado por Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em dezembro de 2018, e lá criticaram o que enxergavam como um monopólio de ideias de esquerda nas universidades.

"Um pouco da contribuição que podemos dar é como vencer marxismo cultural nas universidades", disse aquele que, exatos quatro meses depois, seria anunciado como substituto de Ricardo Vélez Rodríguez no MEC.

O presidente escolheu para o cargo um nome afinado ideologicamente com Olavo de Carvalho, escritor considerado guru de Bolsonaro, mas sem vinculação direta com os grupos que disputam espaço no governo.

A lógica, segundo auxiliares do governo, foi evitar mais briga entre olavistas e militares.

Com FolhaPress