Professora da Bahia é intimada pela polícia após aluna denunciar 'conteúdo esquerdista'

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RIO - Uma professora de filosofia do Colégio Estadual Thales de Azevedo, na capital baiana Salvador, foi intimada pela polícia para prestar esclarecimentos após um aluna registrar ocorrência alegando que ela ensinava "conteúdo esquerdista" em sala de aula. Entre os assuntos abordados, estariam questões de gênero, racismo, assédio, machismo e diversidade.

Segundo a Associação dos Professores Licenciados do Brasil (APLB), a educadora ficou abalada emocionalmente e precisou ser hospitalizada após receber a intimação para comparecer à Delegacia de Repressão a Crimes contra Crianças e Adolescentes (Dercca), onde foi registrada a ocorrência nesta terça-feira.

A mãe da aluna relatou, de acordo com a Polícia Civil, que a filha teria sofrido constrangimento na escola. Disse ainda que, em decorrência de sua opinião política, a adolescente teria sido hostilizada por colegas e impedida de participar de atividades em grupo, sob consentimento da professora. As pessoas envolvidas no caso estão sendo ouvidas na unidade especializada.

O sindicato disse que seu departamento jurídico foi acionado por um grupo de professores e observou atitudes "inamistosas e de perseguição" por parte de uma estudante contra uma docente de filosofia do colégio Thales de Azevedo.

"A APLB-Sindicato, legítima representante dos trabalhadores e trabalhadoras em Educação vem a público manifestar toda a sua solidariedade e apoio jurídico aos docentes da Escola Estadual Thales de Azevedo por tentativas de intimidação, coação e pressão psicológica por grupos de extrema direita que tentam cercear a livre expressão e tumultuar aulas e algumas atividades propostas pelos professores e professoras", disse o sindicato em nota.

'Perseguição'

A entidade informou ainda que, em agosto, um grupo de estudantes e seus responsáveis emitiram uma nota atacando professores e palestrantes após um seminário online realizado pela escola. Em outra ocasião, segundo o sindicato, a mãe da aluna que registrou a ocorrência invadiu o espaço de uma aula online da disciplina de inglês para exigir explicações sobre a temática, que, para ela, seria inadequada por se tratar de feminismo.

O coordenador-geral da APLB, Rui Oliveira, esteve na escola nesta quinta-feira ao lado do representante jurídico do sindicato para apurar as denúncias. Segundo ele, uma manifestação está sendo programaa para semana que vem em frente à escola e à delegacia, na mesma data prevista para o depoimento da educadora. Ela foi encaminhada ao Hospital da Bahia após ter um pico de pressão.

— Issoé uma forma de intimidação, que fere o direito de fala e a liberdade de cátedra. Estamostomando todas as medidas jurídicas e políticas — afirmou Oliveira ao GLOBO.

A equipe gestora do colégio repudiou, por meio de nota, a intimação à professora da instituição por "ferir a liberdade de cátedra e autonomia pedagógica, princípios constitucionais fundamentais".

"Infelizmente, as alegações de que os conteúdos curriculares das ciências humanas são de cunho ‘esquerdista’ e os conteúdos de linguagens são de ‘doutrinação feminista’ têm provocado o enviesamento dos conhecimentos historicamente construídos e dos fenômenos sociais, em silenciamento dos docentes", diz a nota.

Reunião com secretário

O secretário da Educação do Estado da Bahia, Jerônimo Rodrigues, se reuniu nesta sexta-feira com a professora, o corpo docente e os gestores escolares na unidade escolar. De acordo com a secretaria, a pasta acionou a Procuradoria Geral do Estado (PGE), que prestará toda a assistência jurídica à educadora e a acompanhará na oitiva. A equipe de psicólogos da SEC também foi colocada à disposição.

A SEC destacou que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) assegura o respeito à liberdade e o apreço à tolerância, além de garantir o livre exercício da docência. Disse ainda que os conteúdos ministrados pela professora em sala de aula estão em consonância com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Referencial Curricular do Estado, acompanhados pela Coordenação Pedagógica da escola.

"A SEC acompanha o caso e manifesta solidariedade à professora e ao corpo docente, bem como reafirma o compromisso com a livre docência, a pluralidade de ideias, o livre debate e a democracia", disse em nota.

Veja a íntegra da nota da escola:

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