Professora bolsonarista se recusa a orientar alunos 'esquerdistas' na pós

Redes sociais da professora tinham conteúdos de apoio a Jair Bolsonaro (Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images)
Redes sociais da professora tinham conteúdos de apoio a Jair Bolsonaro (Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images)
  • Professora rechaça presença de alunos "esquerdistas" no laboratório de farmacologia que dirige;

  • Em mensagem no WhatsApp, Sheylla Susan solicita que estudantes peçam o desligamento;

  • Universidade caracterizou o caso como "assédio" e disse que tomará as medidas necessárias.

Uma professora universitária da Unifap (Universidade Federal do Amapá) rechaçou a presença de alunos “esquerdistas” no laboratório de farmacologia que ela dirige na instituição.

Em mensagens enviadas em grupo de WhatsApp na manhã de quarta-feira (2), Sheylla Susan afirma que não irá mais orientar os estudantes com viés político diferente do dela.

“Ou estão comigo, ou estão contra mim”, escreveu a professora, conforme o jornal Folha de S. Paulo.

“Não quero esquerdista no meu laboratório. Se tiver mais algum esquerdista, que faça o favor de pedir desligamento.”

Na mensagem, Susan se dirigiu especificamente a dois alunos, aos quais pediu para buscarem outro professor que os auxilie nas pesquisas. Ela afirma que entregaria uma “carta de desistência” à universidade.

Um deles é Debora Arraes, 35, que está no terceiro ano do doutorado em farmacognosia, área que estuda princípios ativos naturais, animais e vegetais.

A estudante, que também é bióloga, ecóloga e professora da Universidade Estadual do Amapá, disse que costuma fazer publicações simples sobre política em suas redes sociais, mas que nunca conversou sobre o tema com Susan nem mandou nada do tipo no grupo do WhatsApp.

"Me senti tolhida, ofendida, violentada, desrespeitada. Principalmente porque sou uma pessoa preta, de família pobre. A trajetória da minha vida caminha junto com a expansão e melhoria das universidades públicas", disse ao jornal.

Arraes afirma que, apesar de ser do doutorado, havia no grupo alunos de iniciação científica, do mestrado, do PET (Programa de Educação Tutorial) e outros programas de pós-graduação.

Segundo ela, o laboratório é fundamental para sua pesquisa focada em veneno de sapos, que está sendo feita com vínculo à rede de pós-graduação Bionorte.

A aluna afirma que irá “buscar novas parcerias”, mas não tem certeza do que irá acontecer.

O que dizem os envolvidos

Procurada pela Folha, Susan se desculpou pela atitude e lembrou que sua profissão não serve a preferências políticas.

"No calor das eleições, acabei me excedendo nas palavras", afirmou. "Peço desculpas pelo ocorrido, as eleições passam e a educação fica."

Em nota nas redes sociais, a Unifap caracterizou o caso como "assédio", disse repudiar a conduta e afirmou que "serão adotadas as providências necessárias" após a apuração dos fatos.

A rede Bionorte disse que realizou a "instalação de comissão de sindicância para apuração dos fatos", que é "totalmente contrária a qualquer tipo de discriminação" e que tomará "medidas cabíveis" sobre o caso.

Debora Arraes também recebeu apoio do sindicato de servidores, de diretores da instituição, de diversos professores e pesquisadores, da Universidade Estadual do Amapá, e informou que a rede Bionorte tem prestado todo o amparo necessário.