Professora deficiente visual aborda cegueira em livro para combater o preconceito

Regiane Jesus
·2 minuto de leitura

RIO — Os olhos de Carla Maria de Souza não enxergam a luz do sol, mas esta professora de português e literatura tem uma visão ampla sobre a vida. A moradora do Grajaú está lançando o livro “A joia, o ourives e outras pérolas” (editora Epapers) para desmistificar a cegueira. Voluntária do Instituto Benjamin Constant, onde lecionou por 25 anos, até se aposentar, ela é da comissão organizadora de revistas da instituição na Urca, reconhecida pelo trabalho na educação de pessoas com deficiência visual. Foi justamente após escrever um texto que ficou extenso demais para a publicação infantojuvenil do instituto que nasceu a ideia da obra, disponível em escrita convencional, e-book — que propicia a conversão para áudio — e, em breve, em braile.

Escrever um livro nunca esteve nos planos de Carla, que está satisfeita com o resultado da experiência, sobretudo devido à função social do trabalho.

— Eu comecei a notar que as crianças cegas traziam preconceitos, dificuldades com relação à deficiência. Os meus textos têm a função de mostrar que não se deve ter vergonha de ler em braile ou de usar bengala. É importante dizer que o livro é para todas as idades e pessoas, não só para as cegas. Quem ler as minhas histórias, que em sua maioria giram em torno da deficiência visual, vai perceber que os cegos não são geniais, nem tolos ou coitadinhos. Somos pessoas normais, com qualidades e defeitos — frisa a escritora, que tem a sua obra à venda no site www.editorafrutos.com.br.

Cega desde os 15 anos, Carla mora com o pai, que também não enxerga. Engana-se quem pensa que a dupla não dá conta das tarefas do lar. A professora, por exemplo, cozinha as próprias refeições:

— Lavo banheiro, arrumo a casa, faço arroz, macarrão, salada, vitamina... Não passo aperto por não enxergar nada. O meu pai vê vultos, mas a sua visão também é bem reduzida.

Curiosamente, a deficiência da escritora não é hereditária. Ela nasceu com baixa visão porque sua mãe contraiu toxoplasmose durante a gestação. Já o seu pai desenvolveu glaucoma na maturidade e não conseguiu controlar o avanço da doença.

— Óculos nunca foram suficientes para eu ter uma visão plena. Mas, dos 13 aos 15 anos, fui perdendo de forma gradual o resíduo que tinha após ter um descolamento de retina. Foi nessa época que uma professora da escola municipal onde eu estudava começou a me ensinaro braile. Fiz faculdade já sendo cega. Com o tempo, a tecnologia se tornou uma grande aliada. O WhatsApp, por exemplo, transforma os textos que recebo em áudio. Os livros também estão cada vez mais acessíveis a todos — conta.

“A joia, o ourives e outras pérolas” pode ter sido o primeiro passo literário de Carla sobre o tema:

— Quem sabe em 2021 vem outro livro por aí? Ideias não faltam!

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