Professora e militante mapuche é eleita presidente da Convenção Constitucional do Chile

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Com 96 votos a favor, de um total de 155 cadeiras, a chilena Elisa Loncon, uma professora respeitada no mundo acadêmico e militante ativa da comunidade mapuche, foi eleita neste domingo presidente da Convenção Constitucional do Chile, numa decisão que, segundo analistas ouvidos pelo Globo, reflete um momento político e social inédito na História do país.

Aos 58 anos, esta mulher, que participou intensamente da onda de manifestações sociais que começou em outubro de 2019 e levou o governo do presidente direitista Sebastián Piñera a defender a necessidade de que o Chile tivesse uma nova Constituição - e derrubasse, assim, a herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) -, conseguiu o apoio de amplos setores que integram a Constituinte, principalmente da esquerda e congressistas independentes.

— Quero agradecer que estamos instalando aqui uma maneira de ser plural, democrático e participativo. Por isso, está Convenção vai transformar o Chile num Chile plurinacional, multicultural, que não atente contra os direitos das mulheres, das que cuidam da mãe terra, que também limpam as águas. Este sonho se torna realidade, é possível refundar o Chile — disse Loncon, em seu discurso de posse.

Na parte da manhã, o primeiro dia de atividades da Convenção foi suspenso durante algumas horas por distúrbios organizados por grupos minoritários e identificados como anárquicos até mesmo por representantes da esquerda, reprimidos pela polícia com jatos d´água e gás lacrimogênio.

Segundo explicaram analistas locais, a ação destes grupos não foi validada pelos membros da Convenção que, uma vez retomada a cerimônia de abertura dos trabalhos, deixaram claro que não estavam de acordo com qualquer tipo de protestos que ofuscasse um dia importante para todos os chilenos.

— Loncon é uma defensora da causa mapuche, de comunidades que sempre foram tratadas com desprezo e discriminação. A Convenção e sua eleição são um reconhecimento desse erro e a expressão do desejo de uma mudança — afirma Marco Moreno, da Universidade do Chile.

Para Moreno, "a presidente da Convenção é um retrato do Chile de hoje, um país diverso".

— Este não é um país dividido entre esquerdas e direitas, e os partidos políticos deixaram de ser centrais. Loncon é o Chile real — frisa o analista.

A presidente da Convenção nasceu na comunidade mapuche Lefwelan, na província de Malleco. Com muito esforço, Loncon se formou como professora e realizou estudos de pós graduação no México e na Holanda. Atualmente, é professora de Letras na Universidade de Santiago, além de coordenar a Rede pelos Direitos Educacionais e Linguísticos dos Povos Originários do Chile.

Na primeira votação, Loncon obteve 58 votos. Para ser eleita, precisou colher apoios na Lista do Povo (integrada por congressistas independentes) e na esquerdista Frente Ampla.

— Agradecemos o apoio de todos os que depositaram seu sonho na convocatória de uma nação mapuche, para votar por uma mulher mapuche, para mudar a História deste país — declarou a nova presidente da Convenção.

Os trabalhos para redigir uma nova Constituição estão apenas começando e vão requerir, destacou Guillermo Holzzman, professor da Universidade de Valparaíso, "um enorme esforço de diálogo e busca de consenso".

— Dentro da Convenção estão muitos dos que estiveram nas ruas protestando a partir de 2019. Loncon é uma dessas pessoas. Ela terá, agora, o desadio de conciliar posições, e não será fácil. Esta é a primeira vez que todos os setores da sociedade chilena estão juntos num mesmo espaço de decisão — concluiu Holzzman.

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