Professora nomeada reitora da Ufpel por Bolsonaro dividirá cargo, de forma inédita, com candidato mais votado

Bruno Alfano
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Foto: Divulgação/UFPel

RIO — A reitoria da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) será divida, de forma inédita na rede pública federal, entre Isabela Fernandes Andrade, segunda colocada na listra tríplice e nomeada pelo presidente Jair Bolsonaro na última quarta-feira, e Paulo Ferreira Júnior, o mais votado pela comunidade para o cargo. O mandado é de quatro anos. A decisão foi tomada em conjunto pelos dois acadêmicos como forma de protesto pelo presidente da República não ter nomeado o candidato com mais votos no pleito.

Na prática, a gestão será dividida. Mas, juridicamente, a escolhida pelo presidente será a reitora.

Na Ufpel, a comunidade acadêmica — professores, funcionários e alunos — vota de forma partiária (todos com o mesmo peso) diretamente no reitor. A eleição é em dois turnos e funciona, na prática, como uma pesquisa de opinião. Nela, concorrem diferentes chapas que debatem seus planos para a instituição. A chapa vencedora, com 56% dos votos no segundo turno, foi a Ufpel Diversa, formada por Ferreira Júnior, Fernandes Andrade e Eraldo Pinheiro.

Após a consulta, em outubro, o Conselho Universitário, que não tem representação paritária, faz nova votação para definir a lista tríplice que será enviada ao governo federal para a escolha do reitor. Podem dispurtar todas as chapas que participaram da consulta geral. No entanto, por um acordo unânime, os candidatos concordaram em enviar ao Conselho os três nomes da chapa vencedora Ou seja, o escolhido teria de ser da Ufpel Diversa.

Ferreirra Júnior teve 50 votos; Fernandes Andrade, cinco; e Pinheiro, três.

No entanto, Fernandes Andrade, que era diretora do Centro de Engenharia, foi nomeada reitora na última quarta-feira pelo presidente Bolsonaro. O grupo, então, decidiu pela divisão do cargo.

O reitor que está deixando o cargo, o epidemiologista Pedro Hallal, apoiou a chapa dos novos reitores. Ele afirma que essa foi uma decisão política de não aceitar que o presidente Bolsonaro interfira na comunidade acadêmica.

— Tenho certeza que foi retaliação (a mim). Ele tentou me enfrentar pela terceira vez. Primeiro cortou financiamento, mas nossa pesquisa continuou. Um a zero para mim. Depois tentou censurar o resultado do nosso estudo que dizia que os indígenas tinham mais Covid-19 do que o restante da população. Não só publicamos, como publicamos em todo o mundo. Dois a zero (pra mim). Agora tentou fazer essa atitude de não nomear (o escolhido pela comunidade acadêmica). Fez papel de bobo pela terceira vez. Ele pode ou não pedir música no Fantástico? — afirmou Hallal.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Educação (MEC) ainda não se proununciou.

A reitora nomeada disse que o susto foi grande e que reconhece ser prerrogativa do presidente a escolha de qualquer um dos três nomes da lista. Porém, diz "lamentar o fato" de o primeiro colocado não ter sido escolhido.

— Assim, terei a função, como reitora, de resolver os problemas da comunidade da Ufpel. Mas decidimos fazer esse ato simbólico de uma co-reitora formada pela nomeada e o eleito como posicionamento político (pela defesa da autonomia universitária) — afirmou.

Mais votado, Paulo Ferreira Júnuor terá um cargo ainda não definido pelo novo comando da Ufpel.

— A Ufpel, na prática, terá dois reitores. A professora Isabela tomará as decisões, assinar e responder por elas, mas todas as decisões serão compartilhadas com o professor Paulo. É um contra-ataque à atitude antidemocrática do presidente da República — diz Hallal.

O presidente Jair Bolsonaro já nomeou 17 reitores que não estavam no topo da lista tríplice. É a primeira vez, no entanto, que sua decisão é confrontada desta forma. Pela lei, o presidente não é obrigado a escolher o primeiro da lista. No entanto, essa era uma tradição que se mantinha desde 2003, na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Durante a pandemia, Pedro Hallal foi o responsável, com o Centro de Epidemiologia da Ufpel, por conduzir a maior pesquisa de inquérito epidemiológico brasileiro a respeito da Covid-19.

Ela buscava identificar a real prevalência da doença no país, mas perdeu o financiamento do Ministério da Saúde, já comandado por Eduardo Pazuello, em julho, bem no auge da primeira onda de casos. Três meses depois, a pesquisa conseguiu parceiros para o retorno dos trabalhos.

Naquele momento, foi descoberto uma grande diferença entre os números das estatísticas oficiais e as pessoas que têm anticorpos para a doença, o que indica que o número de infectados no Brasil pelo coronavírus era cerca de 6,5 vezes maior do que mostravam os dados divulgados. Também apontava que pessoas mais pobres tinham mais infecções que indivíduos mais ricos.