Professora relata como sofreu ataques após debater gênero em sala de aula

***ARQUIVO*** VINHEDO, SP,  BRASIL - 05.05.2022 - Virgínia Ferreira, professora da rede publica em Vinhedo (SP) fez projeto sobre feminismo e violência contra a mulher para a semana do Dia Internacional da Mulher, foi denunciada pela família e sofreu processos administrativos e assédio nas redes sociais. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
***ARQUIVO*** VINHEDO, SP, BRASIL - 05.05.2022 - Virgínia Ferreira, professora da rede publica em Vinhedo (SP) fez projeto sobre feminismo e violência contra a mulher para a semana do Dia Internacional da Mulher, foi denunciada pela família e sofreu processos administrativos e assédio nas redes sociais. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)

SÃO PAULO SP (FOLHAPRESS) - Virgínia Ferreira, 61, era professora de inglês da rede pública de ensino fundamental de Vinhedo, no interior de São Paulo, há 20 anos quando foi acusada de doutrinação. A educadora havia proposto uma atividade sobre feminismo e violência contra a mulher na semana do Dia Internacional da Mulher de 2019.

Enquanto falava sobre termos como gaslighting (deslegitimação de posicionamentos femininos como se fossem exagero ou loucura) e manterrupting (interrupção da fala de uma mulher por um homem que aspira ter a última palavra), a professora foi gravada por uma aluna e depois denunciada pelo pai da estudante.

Alvo de dois processos administrativos, a professora diz ainda ter sofrido ataques e campanhas de difamação nas redes sociais.

"Havia uma série de comentários desqualificadores de pessoas que não me conhecem, não conhecem o meu trabalho e nunca passaram na porta da escola", lembra Virgínia.

Ela é um dos 32 professores entrevistados pela ONG internacional Human Rights Watch (HRW) para o relatório "Tenho medo, esse era o objetivo deles: esforços para proibir a educação sobre gênero e sexualidade no Brasil", lançado nesta quinta-feira (12).

O documento aponta que 20 desses educadores afirmaram terem sofrido assédio ao abordar temas de gênero e de sexualidade, entre 2016 e 2020, tanto de representantes eleitos como de membros das suas comunidades. Alguns foram intimados a prestar esclarecimentos nas secretarias de educação, no Ministério Público ou mesmo na polícia. A educação sexual e de gênero tem efeitos protetivos comprovados por estudos.

De acordo com o relatório, os processos, ainda que não tenham resultado em punição, tiveram peso nas vidas profissionais e particulares dos educadores, com impacto inclusive sobre sua saúde mental.

"Passei um período com crise de ansiedade e procurei uma psicóloga do SUS na minha cidade, que fez um acolhimento muito qualificado comigo por alguns meses", diz Virgínia.

"Primeiro porque tem a questão da surpresa, de saber que seu ambiente foi violado. A exposição pública também é desgastante, e tem gente mais radical que incentiva a violência. Você se sente vulnerável. E de uma forma maldosa porque não havia debate. Havia julgamento e ataque", lamenta.

"A escola é um ambiente em que a gente identifica violências contra crianças e adolescentes. É um espaço em que muitos alunos se sentem seguros para compartilhar vivências das suas casas, então eu tenho certeza da pertinência desse conteúdo", defende Virgínia, que contou com a ajuda da Defensoria Pública de São Paulo por meio do Núcleo Especial de Direito da Mulher.

Outros depoimentos contidos no relatório apontam para a gravidade da situação. Alguns relatam ameaças de morte nos meios cibernéticos, demissões e, principalmente, o medo de retomar o tema em sala de aula.

O documento da HRW analisa também 217 projetos de lei apresentados entre 2014 e 2022 destinados a proibir o ensino ou a divulgação de conteúdo sobre gênero e sexualidade, ou a banir das escolas da rede pública o que é chamado de "ideologia de gênero" ou "doutrinação".

"Ao me atacar, muitas pessoas se posicionaram contra um debate sobre as violências sofridas pelas mulheres e sobre sua superação. A quem interessa silenciar um debate importante desses? Só quem se beneficia disso."

O fato de ser filiada a um partido de esquerda, o PSOL -que ela diz não influir na sua atividade em sala de aula--, fez Virgínia ser criticada em um vídeo do Movimento Brasil Livre (MBL).

O vídeo do grupo político que tem forte base na cidade do interior paulista exalta a "importância do Escola Sem Partido" e aponta o caso como exemplo de que os impostos dos brasileiros estariam "pagando verdadeiros militantes para formarem partidos de esquerda dentro da sala de aula do ensino público".

"Os processos e os ataques nas redes sociais afetaram a minha vontade de ensinar e começou a acontecer uma autocensura. Passei a me questionar demais sobre abordar ou não o assunto. O objetivo dessas pessoas é a censura, e eu não quero ceder a isso", conta Virgínia.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos