Professora venezuelana refugiada dará aulas gratuitas de espanhol a brasileiros: 'Chance de retribuir'

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RIO — o Brasil desde 2018, a venezuelana Yelitza Lafont, de 47 anos, moradora do Morro do Banco, no Itanhangá, vai ministrar aulas gratuitas de espanhol a partir do dia 23 para crianças, adolescentes e adultos brasileiros dentro da ONG Ação Floresta da Barra, localizada há 13 anos na mesma comunidade. Já há 30 inscritos.

— Passei momentos muito difíceis, e a vida me deu uma nova oportunidade. Essas aulas são uma chance de retribuir. Quero ensinar e também acolher as pessoas — conta Yelitza, que se formou professora de biologia na Venezuela.

Há sete meses, Yelitza começou a dar aulas de apoio escolar para venezuelanos, principalmente de alfabetização. Com o tempo, crianças mais velhas começaram a aparecer. Ela recorda que tentou explicar que o ensino era voltado para os mais novos, mas se emocionou e ampliou a turma quando uma menina contou que as aulas a faziam recordar seu país.

— Hoje, são quase 50 crianças, e criei dentro da ONG o Projeto Popular Venezuelano Resgatando Raízes. Cantamos o hino nacional, lemos em espanhol, declamamos poesia e falamos sobre nossa cultura e nossa identidade. Começamos a nos apresentar na comunidade e os brasileiros se admiraram com nossa cultura e ficaram curiosos; as crianças queriam interagir. Daí veio a ideia das aulas de espanhol para eles — explica.

Yelitza e o marido deixaram a Venezuela com os cinco filhos porque já não conseguiam manter a família. Ela veio primeiro para o Brasil, com o mais velho, que tinha 18 anos na época, e morou na rua por sete meses, em Roraima. Depois, foi encaminhada para um abrigo e veio para o Rio. Aqui, morava na Praça das Águas, no Alto da Boa Vista, trabalhava como diarista cerca de 13 horas por dia e ganhava R$ 300, quantia que era enviada para a Venezuela. Três meses se passaram até que fosse enviada para outro abrigo, desta vez, no Morro do Banco.

— Em 2019, com a ajuda da ONU, meu marido veio com meus outros filhos, duas meninas de 16 e 12 anos e um menino de 15. A menina mais velha está no Panamá. Eles vieram com o dinheiro que eu e meu mais velho fizemos trabalhando aqui. Muitas vezes não tínhamos o que comer, e pegávamos alimentos vencidos que iriam para o lixo em padarias e restaurantes — recorda.

Hoje, seu marido trabalha na limpeza geral de uma escola. O filho mais velho ficou desempregado na pandemia, e os mais novos estão no colégio. Yelitza trabalha com contratos temporários na ONG Marrom, que também apoia estrangeiros no Rio. A família mora no Morro do Banco e conheceu a ONG Ação Floresta da Barra a partir da doação de cestas básicas que eles promovem na comunidade.

Rafael Silva, diretor da Ação Floresta da Barra, conta que 300 famílias recebem cestas básicas ensalmente. A ONG busca atender também qualquer pedido de ajuda: distribui cadeiras de rodas, muletas, remédios e outros artigos que forem necessários.

— No momento, temos a campanha de Natal Apadrinhe uma Criança, que tem 150 crianças de até 13 anos. Pedimos roupas e calçados — explica.

A ONG oferece diversas atividades sociais, culturais e de assistencialismo. Há cerca de 180 famílias cadastradas nas práticas, mantidas por 20 voluntários. Para Silva, o trabalho de Yelitza merece destaque. Ele agora quer dar outro passo:

—Temos muitos venezuelanos que moram aqui e ainda têm dificuldade de comunicação. Estamos buscando alguém para dar aula de português para eles.

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