Professoras e ativistas confeccionam bonecas negras e levam cultura antirracista para escolas

RIO — É com agulha, tecido, tinta e caneta que a professora de história e fundadora de uma loja de bonecas negras, Jaciana Melquiades, de 38 anos, ensina questões raciais para crianças de escolas públicas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Esse movimento fez com que ela começasse a confeccionar brinquedos, pequenas "bonecas dandaras" feitas de pano, em homenagem à guerreira negra do período colonial, Dandara de Palmares.

Criadora do projeto “Era uma vez o mundo”, a ativista atua desde 2013 à frente de oficinas educacionais que contam a história de personalidades negras, importantes na construção histórica do Brasil.

— A gente leva elementos para expandir o olhar para a história afro-brasileira e empodera a criatividade das crianças através dessas histórias para transformar a escola num lugar mais democrático — afirmou Jaciana, que já produziu mais de 9 mil bonecas entregues em 23 estados brasileiros.

O sentimento e a vontade de trazer o empoderamento negro para educação fez a carioca criar uma "rede de encontro ancestrais". Ela e mais duas amigas empreendedoras, uma de São Paulo e outra de Salvador, uniram forças para levar o debate antirracista para dentro de escolas. Com uma equipe de mais de 45 profissionais, a “Era uma vez o mundo” já impactou cerca de 15 mil crianças negras.

'Chamado dos ancestrais'

Na capital paulista, as "Bonecas Makenas" - nome da etnia kikuyu que significa “a feliz" - são confeccionadas há mais de 20 anos pelas mãos da pedagoga Lúcia Makena, de 61 anos, e fazem sucesso entre os pequenos estudantes. Ao longo dos anos ela se orgulha do legado deixado com a produção de mais de 20 mil bonecas. Para Lúcia, a atividade vai além da militância, é um “chamado dos ancestrais” para passar a história a do povo negro adiante.

— Nós não somos concorrentes. Enquanto mulheres negras, empreendedoras e conhecedoras da nossa história, somos amigas e nos ajudamos no projeto. A gente se fortalece para levar conhecimento de histórias passadas. Eu lia livros de personagens negros e ensinava os alunos a confeccionar as bonecas. Essa foi a forma que eu encontrei de passar um pouco da história afro-brasileira para essa geração. E a gente ia trazendo a histórias de maneira lúdica — finalizou.

Para especialistas, o debate sobre educação inclusiva e estudo da história afro-brasileira dentro e fora das escolas ainda é motivo de preocupação e 'tabu' no país. É o que afirma Giovani Rocha, PhD em Ciência Política e Estudos da Diáspora Africana na Universidade da Pensilvânia, onde estuda a implementação de políticas antirracistas na América Latina, e Co-Fundador da Mahin Consultoria Antirracista. Para ele, mais do que nunca, é preciso aprofundar reflexões sobre a implementação de políticas antirracistas, reforçando o participação de lideranças brancas no debate racial já que, em sua maioria, são elas que detêm poder político para tomada de decisões de ações mais afirmativas.

— Existem diversas personalidades negras, importantes para o conhecimento histórico do Brasil que não são estudadas em sala de aula. Luísa Mahin, por exemplo, foi uma figura histórica da Revolta dos Malês muito importante para a luta negra. Pouco se fala sobre ela. As pessoas desconhecem a existência de um partido político negro no Brasil a “Frente Negra Brasileira”. As pessoas têm uma visão estereotipadas dos negros. E ainda acreditam que não existe racismo estrutural. — completou.

Rocha relembrou que no ano passado o MEC se enviolveu em polêmicas com relação ao edital do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), que reformulou os conteúdos do material de escola, ao não responderem entidades que alegaram, à epoca, tratar a temática no "escuro".

Situação já corrigida, de acordo com o editor e membro da Comissão Editorial da Abrelivros, Luiz Tonolli, que afirmou atender todos os protocolos do programa ressaltando que: — existe um amplo material relacionado à História da África e à cultura afro-brasileira como recuperação da memória, a afirmação da identidade, a valorização da pluralidade cultural e o combate ao racismo — finalizou.

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