Ansiedade, pânico, dificuldade para trabalhar: profissionais de saúde pedem socorro

Cristiane Capuchinho
·5 minuto de leitura
Profissionais de saúde sobrecarregados pedem socorro (Foto: Getty Images)
Profissionais de saúde sobrecarregados pedem socorro (Foto: Getty Images)

Quer falar de saúde mental? Conversa com quem tá há um ano trabalhando nesse inferno”. “Um ano em UTI Covid e a conta da saúde mental está batendo à porta”. “Não aguento mais chorar. Fui dar notícia de óbito e chorei junto, hoje não me aguentei”. “Avaliem bem o emocional de vocês antes de aceitarem emprego em setor Covid. É pesado demais, você não sente na hora, vai sentindo com os dias. As pessoas que convivem com você é que percebem os rompantes”.

As mensagens de profissionais de saúde sobrecarregados pelo trabalho com a pandemia de Covid se multiplicam nas redes sociais. Os 11 milhões de infectados pelo coronavírus e as mais de 266 mil mortes intensificam há mais de um ano o trabalho desse pessoal, que tem dobrado turnos e atendido em serviços superlotados e dão sinais de esgotamento mental.

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“Estamos falando de um estresse muito grande. É um terreno muito fértil para síndrome de burnout. Temos colegas com questões de ansiedade muito importante, com crise de pânico, com dificuldade de vir ao plantão. Isso tudo aparece neste momento de sobrecarga”, conta Hélcio Santos Pinto, psicólogo do setor Covid no Hospital Universitário de Ponta Grossa, cidade de 350 mil habitantes do Paraná.

No dia em que falava com a reportagem, nove pessoas morreram na emergência por falta de material, de respiradores e de pessoal. O hospital tem prestado atendimento acima de sua capacidade. “Não é por falta de técnica, não é por falta de disposição, é pelo excesso de pacientes. É uma sensação de impotência, de que você tem algo para fazer e não consegue”, explica.

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Uma pesquisa com profissionais do Rio de Janeiro feita pela Fiocruz entre outubro e novembro de 2020 aponta que 87% se sentia abalado emocionalmente devido à pandemia. O estudo recolheu dados de 258 profissionais de saúde pública, entre eles enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos e psicólogos. A maioria declarou ter sintomas de sofrimento mental, muitas vezes mais de um: 60,1% disseram sentir angústia, 53,7% se sentiam mais irritados, 51,4% diziam ter ansiedade e 50,3% tinham dificuldade para dormir.

Ainda não há números para o Brasil sobre o afastamento do pessoal da linha de frente por conta do sofrimento mental, mas este é mais um dos problemas que se amontoam neste momento de colapso.

“Muita gente não quer mais trabalhar na ala covid devido à exaustão mental. É um problema grave. Ninguém aqui está brincando de ser superhomem”, confirmou o presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde, Carlos Lula, em entrevista ao Correio.

Falta de sentido na crise

Em Manaus, triste símbolo do caos sanitário, a segunda onda de casos colocou à prova equipes de saúde devastadas pelas mortes do primeiro pico e com sentimento de desalento diante da incapacidade de atender devidamente a todos os pacientes.

“Em janeiro, tínhamos muitos profissionais que estavam de férias, estavam fora e eles simplesmente não queriam voltar porque já vinham dessa situação [de sofrimento mental], já tinham vivido o que viveram em maio do ano passado e diziam eu vou voltar para quê?”, explica Michele Kadri, psicóloga e pesquisadora da Fiocruz Amazônia. “Os profissionais de saúde não tiveram nem tempo nem acompanhamento adequado para elaborar o estresse crônico. Antes de poder respirar, veio uma onda ainda mais grave e ainda mais pesada em termos de sofrimento psíquico para esses profissionais. As síndromes começaram a aparecer”, lembra.

No início da pandemia, o medo da contaminação pelo coronavírus e o estresse foram aliviados pela empatia pública e pela sensação de missão no dever público. Contudo, com o passar dos meses, a sensação de admiração da opinião pública foi substituída pelos relatos de violência contra profissionais e pelo desdém aos cuidados contra a contaminação. Isso, somado a vivência cotidiana do estresse e do luto, levou muitos ao limite.

A psicóloga conta que houve aumento de relato de síndromes do pânico, de insônia e sintomas de estresse. Com pressão sobre a secretaria de saúde, equipes de saúde mental foram contratadas para trabalhar dentro dos hospitais de Manaus e atender os profissionais no momento da perda de pacientes ou em situações críticas.

“Havia uma raiva grande. Muita gente falando “Poxa vida, a gente está aqui se matando, está há um ano trabalhando nessa loucura’’, enquanto via as pessoas se aglomerando, com festas em família, indo ao centro da cidade, governos não tomando as providências necessárias e nem tendo material de proteção para essas pessoas. Isso tudo são fontes importantes de sofrimento psíquico. Tivemos de fazer um trabalho de acolhimento, de escuta, precisamos desses profissionais trabalhando”, explicita Kadri.

A situação vivida em Manaus hoje deixou de ser excepcional, e os profissionais reclamam da falta de apoio popular para aliviar sua carga de trabalho.

Se cuida para cuidar de mim

“Claro que somos profissionais e esse é nosso trabalho, mas todos nós que estamos no hospital estamos pagando [um preço] alto, com turnos dobrados, muito pesados, um ambiente de estresse, deixando a família de lado”, comenta Helcio, psicólogo da UTI Covid em Ponta Grossa. “Nós já estamos há um ano vivendo isso. Quando você vê que uma pessoa deixa de sair e fica em casa, a gente entende que isso também é um cuidado com o profissional de saúde.”

É nessa linha a campanha da Universidade Estadual de Ponta Grossa de sensibilização da população manter os cuidados contra o coronavírus (máscaras e distanciamento social) como forma de ajudar os profissionais de saúde.

As mensagens trazem fotos dos profissionais de saúde, seus nomes e o desejo que ninguém os conheça pessoalmente. Ao final, a campanha faz um apelo “se cuida para cuidar de mim”.