Profissionais identificados por deixarem morador de rua na calçada podem responder por homicídio

Gustavo Goulart

RIO — A linha de investigação da polícia a respeito da morte do morador de rua, identificado até agora apenas como Anderson, na calçada do CER (Coordenação de Emergência Regional) Centro, na Rua Frei Caneca, pode mudar de vilipêndio a cadáver para homicídio qualificado, caso fique comprovado que a vítima foi retirada com vida da unidade hospitalar da prefeitura. A informação é do delegado Rodolfo Waldeck, titular da 4ª DP, que investiga o caso. Nesta quinta-feira, O GLOBO divulgou imagens de câmera de segurança em mostra o morador de rua, que morreu em frente à emergência, sendo deixado na calçada do CER de cadeira de rodas.

O delegado está à procura de informações que confirmem as denúncias de que o homem estava vivo quando foi colocado para fora da CER. Waldeck aguarda o resultado da perícia do Instituto Médico-Legal (IML) para saber a causa da morte e a identificação da vítima.

— Estamos investigando. Entre várias providências, iremos realizar as oitivas dos envolvidos. Por ora, estamos investigando, inicialmente, um delito de vilipêndio a cadáver. Poderá haver outros — disse o delegado.

As imagens de uma câmera de segurança, obtidas pelo GLOBO com exclusividade, podem ajudar na investigação da polícia. O vídeo mostra que o morador de rua foi carregado por dois homens de terno e gravata, a mesma roupa de todos os seguranças do local, por volta das 5h de quinta-feira. O homem foi deixado na calçada. É possível ver ainda que uma das pessoas chega a vomitar próximo ao morador de rua após deixá-lo. Segundos depois, os dois retornam levando a cadeira de rodas vazia.

Morador de rua morreu com uma nota de R$ 2 na mão

— Ele morreu segurando uma nota de R$ 2 que alguém deu a ele por pena. Na noite de quarta-feira, ele se agarrou às grades da parte da frente da CER e gemeu de dor. Parecia que alguma coisa dentro dele havia estourado – contou uma testemunha.

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Um morador de rua, que conhecia a vítima há cerca de dois meses, contou já ter, por várias vezes, recomendado ao homem que suspendesse o uso de drogas.

— Ele gostava de fumar crack e de beber cachaça. Ia até o CER quando estava com dor, era tratado, ficava bom e voltava para a rua para fumar e beber. Eu já o orientei várias vezes para dar um tempo no uso de drogas. Até, pelo menos, ficar bem de vez. Mas ele não me dava ouvido – disse o homem.

Na manhã desta sexta-feira, o delegado Rodolfo Waldeck informou que, inicialmente, o caso seria tratado como vilipêndio a cadáver (vilipendiar é desprezar ou menosprezar algo, alguém ou alguma coisa). O delito está previsto no artigo 212 do Código Penal e prevê pena de um a três anos e multa. Caso se comprove a denúncia, a tese do crime poderá mudar para homicídio qualificado, que prevê penas de 12 a 30 anos de prisão.

Waldeck ressaltou, no entanto, que vai tomar o depoimento de todos os envolvidos e que outros crimes poderão surgir a partir daí. O delegado afirmou ainda que as imagens podem configurar provas de outros delitos.

Anderson já tinha buscado atendimento no CER outras vezes

Um profissional de Saúde do CER Centro disse ao GLOBO que o prenome da vítima é Anderson. Na terça-feira, uma equipe do jornal encontrou a vítima deitada neste local sobre um banco de pedra. O homem estava coberto por um lençol e gemia de dor. Um repórter tentou conversar, mas ele não conseguia falar tamanha a dor que sentia.

A pessoas conhecidas, Anderson dizia que costumava ir muito à Mangueira. Uma equipe de reportagem do GLOBO esteve na região nesta sexta-feira, mas não encontrou alguém que o conhecesse por foto, nem mesmo na cracolândia embaixo do viaduto da Mangueira.