Profissionais de saúde se revoltam com declarações de Bolsonaro sobre coronavírus: ‘São as mortes mais tristes’

Diego Amorim
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Marcela com o pai, Marcelo, que morreu na última segunda-feira, e com a mãe e o irmão em sua formatura

O “E daí?” de Jair Bolsonaro não revoltou apenas os parentes dos mortos pelo novo coronavírus. A declaração do presidente repercutiu também entre profissionais da área da saúde, que têm lidado diariamente com o coronavírus e as mortes decorrentes da doença. Na noite de terça-feira, ao ouvir de um jornalista que o Brasil havia passado a China em número de mortos nesta pandemia, Jair Bolsonaro disse que não tem como fazer milagre, apesar de ter Messias no nome. E sobre esse aumento dos óbitos, ainda falou: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”. Uma técnica de enfermagem que trabalha num hospital particular na Zona Norte do Rio fala da dor e da tristeza que sente ao ver tantas despedidas. Para a profissional, o presidente desconhece a realidade vivida nos hospitais do Brasil.

— É muito triste: pacientes internados sem contato algum com a família, que recebe as informações apenas por telefone. O desespero toma conta. São as mortes mais tristes que eu já vi. É um desprazer ver um governante lidar dessa forma com uma situação tão grave. As emergências estão lotadas, e nós nos sentimos incapazes. Vivemos num caos diário — desabafa ela, sem se identificar.

 

Uma funcionária de uma unidade de saúde pública de Campo Grande, na Zona Oeste, também lamenta a frase de Bolsonaro.

— Essa fala não condiz com um presidente da República. Foi uma maneira agressiva e equivocada de tratar um assunto tão sério — afirma ela, também sem se identificar.

‘Ele não tem compaixão’

“Presidente, se as feridas do seu próximo não te causam dor, sua doença é mais grave que a dele”. O desabafo é da professora Danielle Bittencourt Ralha, de 35 anos, que perdeu o pai no último sábado, vítima do novo coronavírus. Após a declaração do presidente, a indignação, a dor e a revolta repercutiram entre as famílias de quem morreu pela Covid-19.

— Um homem que demonstra total despreparo exercendo um cargo tão importante. Mesmo não sentindo a dor pela partida de um ente querido, é impossível não sentir a dor de quem chora. O presidente, como somos obrigados a chamá-lo, foi mais uma vez infeliz na sua fala, demonstrando sua falta de empatia e respeito por nós. Ele não sabe o que é compaixão. Devo lembrá-lo que sua vaidade destruiu meu coração — afirma Danielle.

O funcionário público Ernesto Moreira Bittencourt, pai da professora, morreu aos 69 anos. Ele era diabético e não resistiu à doença após ficar internado num hospital de Nilópolis, na Baixada Fluminense. A mãe e o irmão de Danielle também testaram positivo para a Covid-19. Ernesto foi sepultado na ultima segunda-feira, um dia antes de seu aniversário de 70 anos, que teria uma comemoração virtual em família.

— Estamos diante de um cenário de guerra. Uma guerra invisível aos olhos de quem não quer ver, uma guerra de sobrevivência. É tudo muito triste. Espero sinceramente que essas mensagens repercutam e cheguem até ele (Jair Bolsonaro). O mundo precisa de mais empatia — afirma Danielle, que conta ainda: — Ontem (terça-feira), eu levei almoço para minha mãe e meu irmão. Deixei pendurado na árvore a pedido deles para que não haja uma possível contaminação. Isso me abalou muito, só eu sei. Nos acalentamos, infelizmente, com palavras abafadas por máscaras.

Quem também ficou indignada com a fala de Bolsonaro foi a bióloga Marcela Mitidieri, de 25 anos, que perdeu o pai na segunda-feira. Marcelo Mitidieri, de 48 anos, morreu na UPA do Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio, enquanto aguardava transferência para uma outra unidade de saúde.

— Ele (Bolsonaro) fala isso porque, se algo acontecer com ele ou com seus familiares, todo o suporte necessário será oferecido, coisa que meu pai e muitas pessoas não têm. As vidas não podem ser tratadas com ironia ou deboche. Nada trará o meu pai de volta, e eu ainda tenho que conviver com esse presidente falando essas coisas — lamenta Marcela.

A dor de se sentir estatística

O chefe de cozinha Fernando Thiengo afirma que, apesar de não acompanhar o cenário político do país, a declaração só trouxe mais raiva e dor à toda família. Ele perdeu o primo Marcelo Thiengo, de 45 anos, que tinha bronquite, morava em Duque de Caxias, na Baixada, e morreu no último domingo na UPA do Parque Lafayette.

— Não estamos acompanhando as notícias neste momento de luto, mas ficamos sabendo da declaração. É revoltante qualquer pessoa falar isso, imagine um presidente. É revoltante alguém que só se importa consigo mesmo, isso cria um ódio dentro da população, que sente cada vez mais raiva. Talvez Bolsonaro só sinta de verdade quando a doença estiver próxima a ele. Isso machuca muito a gente — diz Fernando.

O técnico em telecomunicações Gustavo Félix Maia, de 39 anos, perdeu a mãe há 15 dias. A aposentada Luíza Helena Maia, de 78 anos, morreu após ficar alguns dias internada no Hospital Geral de Nova Iguaçu, na Baixada. Ele afirma que a frase de Bolsonaro o faz achar que a idosa tornou-se “apenas mais um número nessa pandemia”:

— Nossos parentes não são irrelevantes. Só quem perdeu alguém querido conhece a dor. Sinto como se a gente fosse gado, número, estatística. Foi a minha família que perdeu a âncora, a base, a mulher que dava sustento a todos nós, não a dele. É bem triste ter que ouvir essa frase agora.