Proibição do álcool no islã é fruto de leitura mais literal do Alcorão

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Se o plano do Qatar era usar a Copa para seduzir o mundo, não está dando certo. Desde o anúncio de que esse país hospedaria o evento, não faltaram polêmicas --sobre o calor, a exploração dos trabalhadores imigrantes, a punição dos homossexuais e a repressão das mulheres. Falou-se sobre tudo, menos futebol.

O imbróglio da vez é a proibição da venda de cerveja nos estádios, anunciada pela Fifa na sexta-feira (18), dois dias antes da estreia do evento. O Qatar conseguiu, com isso, reabrir uma discussão antiga, que vai ferir ainda mais sua imagem: a questão do álcool no islã.

Dizer que o islã proíbe o álcool é redutivo demais. Essa religião, seguida por um quarto do mundo, é marcada por nuances. Não existe apenas um islã, e sim diversos islãs, no plural.

Basta recordar que um dos grandes poetas de língua árabe, Abu Nuwas, era conhecido --e celebrado-- por seus poemas sobre os prazeres do vinho. São de Abu Nuwas, que viveu nos séculos 8 e 9 em Bagdá, os versos "pobre e maldito é o tempo em que sóbrio fico / mas quando trôpego pelo vinho torno-me rico".

O islã surgiu no século 7 na península Arábica, com as revelações divinas recebidas pelo profeta Maomé. Seu texto sagrado é o Alcorão, equivalente à Bíblia dos cristãos. Como não há uma autoridade central correspondente ao Papa, essa religião monoteísta se transformou por meio de complexos debates teológicos.

A questão do álcool, como a do véu, foi interpretada de maneiras diferentes através do tempo e do espaço na lei islâmica, a chamada sharia. Em breves versos, o Alcorão condena a intoxicação, sem prever punições específicas. Uma das leituras possíveis é a de que pessoas inebriadas perdem a capacidade de pensar e não são capazes de cumprir suas obrigações religiosas.

Mesmo essas rápidas menções são tema de debate religioso. O termo que aparece no Alcorão é "khamr". Estudiosos discutem o que a palavra em árabe significa. Alguns sugerem, por exemplo, que "khamr" se refere apenas ao fruto da fermentação da uva, como o vinho. Outros estendem o significado para abranger todo o tipo de álcool --incluindo a cerveja nos estádios da Copa do Mundo.

Essa variedade de interpretações ajuda a explicar como uma cultura pode ao mesmo tempo proibir e celebrar a bebida. As poesias de Abu Nuwas sobre o vinho fazem parte de um gênero à parte, o "khamriyyat", dedicado à prazerosa intoxicação pelo álcool. Abu Nuwas, diga-se de passagem, também celebrava as relações homossexuais, hoje condenadas no Qatar.

Os países de cultura árabe e islâmica, ademais, produzem o famoso áraque. À base de uva e anis, essa bebida é parecida com o anisete. Misturado à água, o líquido fica branco e turvo como o leite. É um favorito em lugares como o Líbano.

Como no passado, os governos e populações do Oriente Médio hoje tratam o álcool de maneiras diferentes. Os países do Golfo, com leituras mais literais da religião, têm provavelmente as regras mais rígidas.

Não é crime beber no Qatar. O problema é ser encontrado bebendo ou bêbado em público. A monarquia, porém, dificulta o consumo até beirar a proibição. A autorização para vender álcool é rara e custosa, envolvendo uma longa burocracia. Hoje, a maior parte dos estabelecimentos qataris que comerciam cerveja são os hotéis. O público-alvo são os estrangeiros, tanto os que vivem no país quanto os turistas.

É tão difícil encontrar uma cerveja no país que forasteiros criaram um mapa de pontos de venda e o distribuíram nas redes sociais. Além de difícil, é caro: antes da proibição desta sexta-feira, a previsão era de que cada cerveja iria custar o equivalente a R$ 74 nos estádios e nos eventos oficiais da Fifa. A mão do mercado pode encarecer o produto ainda mais, agora que ficou mais escasso.

A situação é parecida nos Emirados Árabes, próximos do Qatar. Quem destoa no Golfo é a Arábia Saudita. Ali, o álcool é proibido de maneira intransigente --e seu consumo pode ser punido com o chicote. Ainda assim, a realidade é mais complexa do que o texto da lei. No mercado negro, é possível comprar uma bebida alcoólica caseira chamada siddique.

O risco, com toda essa renovada atenção ao que o islã diz sobre o álcool, é reforçar o estereótipo segundo o qual essa religião é radical e incompatível com a modernidade. Esse tipo de ideia, é claro, depende de fazermos vista grossa ao fato de que os Estados Unidos também proibiam a bebida nos anos 1920.