Projeto criado para distribuição de cestas básicas na favela se torna parceiro da Fiocruz

Pedro Zuazo
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Um projeto criado para distribuir cestas básicas no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, acabou se tornando um braço da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no monitoramento da pandemia nas favelas cariocas. Tudo começou quando um grupo de jovens da comunidade decidiu arregaçar as mangas, em maio do ano passado, para ajudar famílias desamparadas na região. Enquanto entregavam alimentos de porta em porta, eles tiveram a ideia de coletar informações sobre sintomas de Covid-19. Assim surgiu o LabJaca, um laboratório de dados da periferia.

— Não havia muitos testes na época, então começamos a passar um formulário com uma lista de sintomas para os moradores. Logo percebemos uma discrepância entre os números oficiais e nossos dados — conta um dos fundadores, Bruno Sousa, de 23 anos, que é jornalista e pesquisador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec).

As ações começaram em maio, com sete pessoas, e hoje já são 14 colaboradores. Para estruturar o laboratório e expandir sua atuação, o grupo criou uma vaquinha virtual que superou a meta inicial de R$ 90 mil: já arrecadou R$ 94.775.

— Queremos mapear os impactos sanitários e socioeconômicos da pandemia no Jacarezinho nos próximos três anos, porque os dados divulgados sobre a favela não são condizentes com as reais demandas desse território— explica Bruno.

Até agora, foram contabilizados 942 casos e 68 óbitos no Complexo do Jacaré, com uma população estimada em 37 mil pessoas, segundo o censo de 2010. A informação é atualizada a cada 15 dias e a expectativa é de um aumento no próximo boletim, segundo Bruno:

— Tivemos um aumento perceptível nos relatos de pessoas que adoeceram.

Histórias como a do LabJaca se repetiram em outras comunidades. Graças à contribuição de movimentos como Redes da Maré, Comunidades Catalisadoras, e Grita Baixada, a Fiocruz consegue compilar os dados do Painel Unificador Covid-19 nas Favelas. As informações, coletadas quase artesanalmente ganham uma roupagem científica que fornece uma visão mais precisa do impacto da pandemia nesses territórios.

— Temos relatores em mais de 200 favelas. São pessoas que já faziam ações sociais nas comunidades e passaram a coletar dados. A partir daí, criamos uma metodologia, usando também os dados oficiais, para gerir o painel — diz a pesquisadora Renata Gracie, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica (Icict/Fiocruz).

Dificuldade no processo

O monitoramento do avanço da pandemia nas favelas esbarra em limitações. Uma delas está relacionada aos endereços, que muitas vezes não estão catalogados. Por isso, muitos moradores não preenchem o CEP ou fornecem dados imprecisos. Para driblar essa dificuldade, os pesquisadores criaram áreas de influência a partir de CEPs. A metodologia já abrange 60% dos domicílios em favelas classificados pelo IBGE, e poderá ser usada depois para monitorar outros indicadores.

— Georreferenciar dados em favela é mais difícil. A ideia é que depois esse painel possa contribuir com levantamento de outros dados — diz Renata Gracie, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz).