Projeto cuida da saúde de gestantes sem-teto realizando sonhos de mães que criam seus bebês nas ruas

O cômodo tem uns 10 metros quadrados. Na cama de casal, na verdade duas de solteiro dispostas juntas, dormem a auxiliar de limpeza Janaína Bittencourt, de 36 anos, o marido e a filha de um ano. A caçula, recém-nascida, fica em um bercinho ao lado. Em frente, uma prateleira tem óleo, açúcar, arroz, itens doados. Janaína prepara tudo numa cozinha compartilhada com outras famílias que moram em um abrigo na capital paulista.

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Ela se mudou para lá há pouco mais de nove meses, quando recebeu o teste positivo da gravidez. A descoberta da quinta gestação foi em um consultório itinerante da prefeitura de São Paulo, e foi encarada com preocupação por Janaína. Naquele mesmo dia, ela buscava uma saída para deixar a rua, o que era uma tarefa difícil com o marido desempregado.

— Pensei em tomar remédio para abortar. Fiquei com medo de ir para a rua com as duas bebês, de não ter o que dar a elas para comer — lembra.

O medo tinha razão de ser: sem dinheiro para o aluguel, a auxiliar de limpeza já havia morado com os três filhos mais velhos na rua e, em 2019, perdeu a guarda das crianças após deixá-las com uma vizinha ao buscar cesta básica em uma igreja. Na época, Janaína, que era mãe solo e morava em uma ocupação, foi surpreendida pelo Conselho Tutelar.

Proteção familiar

No atendimento itinerante, o Consultório na Rua conseguiu encaminhá-la para um abrigo, onde passou a ter atendimento médico e assistencial. Ali, sentiu-se segura para seguir com a gravidez.

A filha recém-nascida, Gabryely, tem pouco mais de duas semanas. Janaína faz cursos de qualificação para conseguir um emprego.

O Consultório na Rua é uma iniciativa da prefeitura paulistana para ampliar o acesso à saúde de pessoas em situação de rua, sobretudo na maternidade. Em 2022, ao menos 564 grávidas nessa condição foram atendidas. Coordenadora da Clínica de Direitos Humanos Luiz Gama e mestranda na Fundação Getulio Vargas (FGV), Laura Salatino ressalta que as grávidas em situação de rua enfrentam uma série de obstáculos, como falta de acesso à saúde e higiene pessoal; ausência de alimentação de qualidade e água potável; além da dificuldade de conseguir centro de acolhida e creche para os filhos, já que não têm endereço fixo.

— Na prática, essas estruturas fragilizam ainda mais estas mulheres e suas famílias. Em muitos casos, a resposta do Estado é a destituição do poder familiar e a separação de mãe e filhos, desmembrando a unidade familiar com o argumento de que crianças não podem estar nas ruas e sem considerar alternativas habitacionais e de assistência — explica.

No projeto, essas mães recebem cuidados que vão além da atenção à saúde e que tornam a maternidade mais suave para quem está nas ruas: chás de bebê, ensaios fotográficos e enxovais completo. Para isso, basta que cumpram uma agenda obrigatória de consultas médicas. As atividades funcionam como incentivo para aumentar a adesão das grávidas ao pré-natal e prevenir problemas de saúde do bebê.

Foi em uma de suas primeiras passagens pelo Consultório na Rua, inclusive, que Janaína descobriu que tinha sífilis, doença que pode ser transmitida da mãe para o bebê, levando à má-formação do feto e até ao aborto espontâneo.

A auxiliar de limpeza diz que começou o tratamento no mesmo dia do diagnóstico.

— Fornecer o enxoval, fazer o chá de bebê, é dar dignidade a essa mulher, mostrar que existe algo além daquele cenário em que ela se encontra — afirma Giselle Cacherik, coordenadora da Atenção Básica da capital.

Chá de bebê

Francisca Brena Oliveira, de 18 anos, foi uma das gestantes que participaram do chá de bebê este ano. Ela se mudou grávida de Itapipoca, no Ceará, para São Paulo, depois de o marido se desentender com a família. Ao GLOBO, contou que não fez enxoval em sua cidade natal, onde morava com parentes em uma casa de taipa.

— Agora tiramos fotos, fizemos o cabelo, maquiagem, massagem nos pés. E no final ganhei um kit com manta, sopa, fralda, lenço e pomada. Fiquei me sentindo uma rainha — diz Francisca, que mora provisoriamente em um hotel da prefeitura, em Bela Vista, com o marido e um filho de um ano e três meses.