Projeto ensina programação para jovens de periferia

Arthur Gandra ensina programação para crianças da periferia. Foto: Arquivo Pessoal

Ao se questionar o que poderia fazer para mudar o mundo para melhor e auxiliar a população periférica a ter acesso à programação, o jornalista, programador e educador Arthur Gandra resolveu desenvolver o projeto Jovens Hackers.

Ao juntar sua vocação para ensinar e a vontade de voltar para a sociedade todos os conhecimentos que adquiriu quando estudava, o projeto se tornou realidade e se fortaleceu. Hoje, ele já conta histórias de alunos que estão mudando suas vidas por conta da programação.

Ao blog, Gandra afirmou que ensinar programação para crianças de periferia faz com que elas tenham várias oportunidades. “Ensinar programação, é ajudar com que elas mudem essa chave, com que elas passem de consumidoras para criadoras, que elas tenham conhecimento para hackear a própria vida delas”, afirmou.

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Leia a entrevista completa:

De onde veio a ideia do projeto?

Arthur Gandra: Quando eu era adolescente, eu não fazia a menor ideia do que eu queria seguir na minha vida. Eu só sabia que eu gostava muito de mexer em computador. Aí eu me matriculei em uma Etec (Escola Técnica Estadual), passei no vestibulinho e comecei um curso técnico em informática. Acabei não seguindo na área. Na faculdade, eu fiz o curso de jornalismo, de comunicação social, mas eu sempre fui muito ligado à tecnologia. Tanto que eu comecei a trabalhar, desde o início da faculdade, em agências de comunicação para empresas de tecnologia.

De onde veio a ideia de ensinar crianças?

Gandra: Eu sempre soube da importância de você ensinar programação para uma criança. O meu irmãozinho e meu sobrinho tinham 6 e 7 anos. Aí eu comecei a procurar maneiras de ensiná-los, buscar metodologia e conteúdos. E eu não achei nada em português. Na época não tinha muita coisa no Brasil. Eu achei um conteúdo internacional e comecei a ensiná-los com o material gringo que eu tinha. Eu não moro com eles, mas eu ensinava nos finais de semana e férias. Aí eu acabei achando interessante, acabei pegando gosto pela coisa.

Por qual motivo tinha essa vontade?

Gandra: Eu sempre quis fazer trabalho voluntário. Principalmente depois da faculdade. Eu fui assistir à uma palestra de um jornalista famoso e, nessa palestra, ele estava lançando um livro e ele disse que todo o recurso com a venda daquele livro seria destinada para uma instituição de ensino que ele estudou que é pública. Aí eu fiquei com aquilo na cabeça. Eu não fiz faculdade pública, mas eu fiz faculdade particular com bolsa pública. Eu fiz ProUni (Programa Universidade para Todos) e Etec, que também é pública… eu fiquei com vontade de voltar para a sociedade os meus ensinamentos.

Quando isso tomou forma?

Gandra: O tempo foi passando e eu descobri o negócio de impacto social, que a gente chama de setor dois e meio, que está entre o setor dois, que são as empresas, e o três, que são as ONGs (Organizações Não Governamentais). Então, basicamente, a gente tem uma visão de ONG, mas uma constituição de empresa. A gente não visa lucro, mas a gente precisa de recursos para manter a operação da empresa. O que não vai para pagar aluguel e funcionário, a gente investe na própria empresa.

Jovens aprendem programação e mudam suas vidas. Foto: Arquivo Pessoal

Como foi esse começo?

Gandra: No começo eu não fazia ideia de como seria. Eu sabia apenas que eu tinha gostado muito da experiência de ensinar pro meu irmão e pro meu sobrinho. Eu queria seguir fazendo aquilo. Só que aí a primeira coisa que eu descobri foi um edital público da prefeitura de São Paulo e o edital era bem favorável à minha proposta. Eu nunca tinha participado de um edital e passei. Para a minha surpresa, eu passei, fui selecionado, e eu digo que meu primeiro cliente foi o setor público.

E com isso você conseguiu ajudar quantas pessoas?

Gandra: Aí, com esse subsídio público, em 2017, eu consegui formar 500 crianças, nos bairros de Paraisópolis e Campo Limpo. Foi uma experiência muito bacana e enriquecedora. Eu sabia do meu propósito, sabia que as crianças gostavam e eu não sabia ainda como seguir em frente. Passou o ano, acabou o edital e eu não sabia como continuar. Em 2018, eu passei por um programa de aceleração. Aí que eu fui saber mesmo o que era um negócio de impacto social.

Como as crianças reagem a isso?

Gandra: As crianças de hoje são nativas digitais. Elas já nascem cercadas de dispositivos tecnológicos, conectadas na internet, mas elas são apenas consumidoras de plataformas fechadas. Então, ensinar programação, é ajudar com que elas mudem essa chave, com que elas passem de consumidoras para criadoras, que elas tenham conhecimento para hackear a própria vida delas. A gente acredita que todas as crianças deveriam ter as mesmas oportunidades, inclusive sobre aprender a programar. É para isso que os Jovens Hackers existe.

Quantas pessoas fazem parte do projeto?

Gandra: De equipe fixa sou eu, mas tem uma equipe variável de educadores. De acordo com o projeto, local e duração, eu seleciono alguns educadores para participar. E tem colaboradores que ajudam em outras áreas, como comunicação, enfim… mas eles não fazem parte da equipe fixa do projeto.

Por qual motivo é importante ensinar programação para os jovens?

Gandra: Eu costumo dizer que você ensinar programação para uma criança é como você dar superpoderes para elas. No mundo virtual, não há uma série de limites que há no mundo físico. O limite é a criatividade e o esforço da criança. Isso dá muita autoestima, eles se sentem mais capazes e isso acaba ajudando no desempenho em até outras matérias. Eu tinha casos de alunos que eram indisciplinados e aí para poder participar das minhas aulas eles mudaram muito. Porque, caso eles não se comportassem, eles não poderiam participar das aulas, que era atividade extracurricular e limitada.

Essa oportunidade é fundamental?

Gandra: No Brasil, o ensino de programação é dado, principalmente, por escolas particulares. Escolas parecidas com a minha já existem no Brasil, mas elas estão restritas aos bairros nobres e centrais das grandes cidades. E elas praticam uma mensalidade impeditiva para o público periférico. O Jovens Hackers se posiciona como um negócio de impacto social e periférico por duas maneiras. A primeira é a presença na periferia e a segunda é o valor da mensalidade.

O Jovens Hackers é de graça?

Gandra: Em alguns projetos ela é gratuita e em outros tem um valor acessível. Eu recebo muito relato de pais que dizem “poxa, eu fui na escola da região central, queria muito fazer e, por ser longe e caro, eu não consigo fazer” ou “eu até conseguiria pagar para o meu filho, mas eu tenho três”. A gente sabe que essa questão de localização é importante. Fora a questão de custo, de deslocamento e de transporte, tem uma questão também de as pessoas não se sentirem confortáveis em determinados ambientes.

Jovens ganham "conhecimento para hackear a própria vida". Foto: Arquivo Pessoal

Qual a ideia do projeto?

Gandra: O Jovens Hackers é uma escola de programação, robótica e cultura maker que foi criada na periferia e para a periferia. A gente ensina os conceitos de aprendizagem criativa de uma maneira lúdica. A gente não acredita em um aprendizado que não seja divertido e que não tenha um propósito. A gente desenvolve três pilares: o raciocínio lógico, a criatividade e o trabalho em equipe. Eu digo que, quando uma criança se matricula no Jovens Hackers, tem duas possibilidades para ela: ou ela se torna programadora, que é uma profissão que está em alta, ou também ela pode ser pintora, artista, professora, ela pode ser qualquer coisa.

O que os alunos te falam? O projeto muda a vida deles?

Gandra: Eu tenho relatos dos mais diversos. A maioria deles gosta muito. Eu tenho relatos de pais que dizem que os alunos esperam a semana inteira para ter aula. No geral, a aceitação é bastante positiva. Tem um caso que eu acho muito interessante de um ex-aluno meu que ele gostava muito das aulas e que, por isso, o sonho dele seria ser professor de tecnologia assim como eu. O grande objetivo dele é construir alguma coisa para ajudar a avó dele a ouvir melhor. Ela tem problema de audição e o sonho dele é usar o conhecimento que ele adquiriu para fazer a diferença na vida da avó dele. Na época, ele tinha 9 anos. Eu não sei se ele vai conseguir desenvolver esse dispositivo, mas com esse tipo de pensamento, alguma coisa de muito extraordinário ele vai desenvolver. Se, com essa idade, ele já tem vontade de mudar o mundo e está buscando conhecimento para isso, ninguém segura.

Tem outro caso que te marcou?

Gandra: Tem outro aluno que fez aula comigo. Ele era aluno de escola pública e fez aula comigo de programação e robótica. Ele se encantou pelo conteúdo e conseguiu uma bolsa em uma escola particular para integrar a equipe de robótica. Ele ganhou medalhas e hoje ele é estagiário na escola e ajuda outros adolescentes a aprender. Então, ele virou professor também.