Projeto insere refugiadas no mercado de trabalho por meio da costura e dá suporte à integração

Carolina Callegari
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A criadora Emanuela Farias na sede do projeto Mulheres do Sul Global, na Glória

RIO — Em meio ao barulho das máquinas de costura, conversas com sotaques diversos e risos. Num clima descontraído, costureiras transformam tecidos e outros materiais doados em roupas, acessórios e produtos para o lar. Ponto a ponto, com dedicação, as peças são construídas. Também é por meio da costura que uma nova vida, aos poucos, se desenha ali para mulheres refugiadas. Num ateliê multicultural, as participantes (vindas do Congo, da Venezuela, de Angola e de Guiné-Bissau) dão forma ao empreendedorismo, à independência financeira e ao empoderamento feminino. O projeto Mulheres do Sul Global tem ganhado cores e formas desde sua criação, há três anos, tendo como metas a capacitação profissional e a inserção social de refugiadas que mudaram completamente de vida ao atravessarem a fronteira para o Brasil em busca de um recomeço.

Desde o início do ano, o projeto tem sua sede na Villa Aymoré, na Glória, que reúne ateliê, estoque e escritório. Hoje, são 16 costureiras que chegaram em situação de refúgio. No início do projeto, as mulheres recebiam máquina para fazer as peças em casa.

Agora, com um endereço fixo, mesmo quem ainda tem o equipamento marca presença na sede, uma forma de fortalecer os laços e criar novos, segundo a venezuelana Janete Garcia, de 49 anos. Ela chegou ao Brasil em 2018 — ao lado de mais de 61 mil compatriotas que migraram naquele ano — pela fronteira com Roraima, fixando-se na capital, Boa Vista. Em seu país ficaram os pais e três dos quatro filhos; só a caçula veio com ela. A necessidade de enviar dinheiro para casa, diante da alta inflação, motivava a busca por um emprego. A viagem para o Rio, três meses depois, veio da oportunidade de fazer parte de um grupo apoiado por diversos órgãos dedicados ao processo de interiorização, entre eles o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). A iniciativa teve como base inserir os acolhidos na sociedade. Eles tinham apoio para encontrar emprego, uma nova casa e escola para as crianças.

— Vim com um grupo em que eu era a mais velha. Fizemos cadastro para buscar emprego. Eu pensava que seria a última a encontrar um, mas fui a primeira. Era para esse ateliê de costura. Fiz uma prova e passei. Tudo o que eu ganhava no trabalho, juntava para ajudar minha família — conta Janete, vez ou outra parando para perguntar se seu português já está bom.

O esforço foi recompensado e agora a família está reunida no Rio. Janete diz que não pretende voltar a Caracas (cidade onde viveu a maior parte da vida), mesmo que o governo do país mude. A lembrança da terra natal é nutrida pelo contato com as novas venezuelanas que chegam ao ateliê. Janete prefere estar no espaço mesmo tendo uma máquina industrial em sua casa, no Morro do Banco, no Itanhangá.

— Chegar aqui é como ter uma casa e uma família da Venezuela. Venho para ajudar as meninas novas, inclusive com a comunicação. Cheguei igual a todas: com sonhos, incertezas, garra de querer uma vida melhor e, ao mesmo tempo, com medo e muito apavorada — diz Janete.

Quando Emanuela Farias começou a pensar no que mais tarde seria o Mulheres do Sul Global, sua vontade era criar uma iniciativa que capacitasse os participantes, proporcionando independência financeira e devolvendo a autoconfiança. Daí começou um ateliê também de transformação social. Como no processo de criação de uma peça de roupa, ela buscou referências e modelos a serem adaptados para sua realidade, avaliou os materiais que tinha à mão e alinhou tudo num plano de negócios para se tornar autossuficiente.

Em 2015, durante uma viagem à Índia para um ano sabático, Emanuela observou a organização da sociedade daquele país.

— A condição da mulher na Índia é muito mais uma questão de sobrevivência, por causa do sistema de castas. Ao mesmo tempo eu via que elas operavam uma indústria têxtil a céu aberto. A máquina tinha um papel social diferente. A partir disso pensei em ter um negócio associando mulheres e a costura — conta Emanuela.

De volta ao Rio em 2016, o arremate do que se tornaria o projeto surgiu num curso de cinema de documentário. O tema de sua produção foi o movimento de refúgio. Em contato com o Programa de Atendimento de Refugiados e Solicitantes de Refúgio Cáritas do Rio de Janeiro (Pares Cáritas RJ), conheceu histórias e dados sobre a migração compulsória, e a relação entre independência financeira e o início de uma nova vida ficou mais clara.

O projeto foi ajustado durante nove meses, em 2017, ao ser selecionado para o Shell Iniciativa Jovem, no qual conquistou o primeiro lugar. No mesmo ano foi vencedor do Desafio de Moda Sustentável Colabora América. De volta à Cáritas, nove mulheres do Congo e de Angola foram selecionadas para participar. Até a mudança para a Glória, a costureira Tereza Vitoriano deu as primeiras aulas e alugava um espaço com maquinário em seu ateliê no Itanhangá. O ano seguinte também foi de descobertas e ajustes, conta Emanuela:

— Foi importante para o empoderamento delas através da costura. Não era só ensinar o ofício, era observar o que precisavam. Por isso demos máquinas para elas terem em casa. Muitas são mães e não têm com quem deixar os filhos. Muitas chegam ao Brasil com histórias pesadas, e vimos que era necessário ter uma assistente social.

Gestão de resíduos

A economia circular também foi entrelaçada à iniciativa do Mulheres do Sul Global por meio da gestão de resíduos. Marcas parceiras (como Farm, Shell e Lenny Niemeyer) doam o que seria descartado, como sobras de tecidos. Daí, surgem os produtos, de blusas a jogos americanos, guardanapos, porta-talheres e bolsas (as criações mais recentes do catálogo). O leque foi expandido, saindo da produção exclusiva de dólmãs, aventais e toucas. Em parceria com empresas, até mesmo banners viram matéria-prima para as peças. Esse viés rendeu, em 2018, o Selo Empreendimento Sustentável Shell Iniciativa Jovem. As criações, assim como a agenda de eventos, são divulgadas no perfil do projeto nas redes sociais e no site (mulheresdosulglobal.com).

Atualmente, são 35 integrantes na equipe, das quais 16 são migrantes e cinco são homens. Há também voluntárias na parte de logística e organização. Todas as estrangeiras têm documentação regularizada e, como forma de apoio, recebem cuidados relacionados a saúde física e mental, com rodas de conversa e atendimento psicológico e social, além de consultas médicas.

Quando Ivandira Gomes Ferreira chegou ao Brasil não sabia costurar. Aprender um novo ofício que pudesse se tornar profissão não estava em seus planos quando desembarcou, há cerca de dois anos, como acompanhante da mãe, que estava doente e veio em busca de tratamento médico em Recife. Com o visto de turista válido por três meses, pediu refúgio após a morte da mãe e a mudança para o Rio, para que não fosse necessário voltar a Guiné-Bissau, país africano que enfrenta graves problemas econômicos e depende de ajuda humanitária.

Aos 29 anos, Ivandira se define como uma pessoa estudiosa. Depois do aprendizado da costura, a conquista foi o ingresso no curso de Serviço Social, na Unopar. O idioma não é um problema, já que em sua terra natal se fala português. Ela faz planos em seu novo país para ajudar a família, composta por dois irmãos e duas irmãs.

— Eu me interesso por aprendere qualquer coisa. Fui pegando como costurar aos poucos. No primeiro dia, achei que a máquina ia muito rápido. A prática vai deixando mais fácil. Meu sonho agora é estudar para terminar a faculdade — diz. — Vim para o Brasil com a minha mãe porque um dos meus irmãos estudava aqui e disse que o tratamento era mais barato. Num primeiro momento eu estava com medo, mas me acostumei. Agora quero trazer meu sobrinho porque ele precisa fazer uma cirurgia na vista.

A assistente social Marlene Barros Marques entrou no projeto para prestar auxílio às refugiadas. Atenta aos detalhes, é capaz de ler os gestos, independentemente de sotaques. No entanto, são das conversas que vêm o alívio e o conforto quando a saudade de casa e da família aperta. Os casos são acompanhados pela Caritas e por especialistas do abrigo onde estão morando.

— Não tem como não ser tocado. São histórias muito duras. Quando elas conversam sobre o assunto, ficam aliviadas. Nós estamos na nossa pátria, nos entendemos. Essas são pessoas que podem ter andado por semanas ou que viram o filho morrer por falta de atendimento. Tentamos ajudar dentro das nossas possibilidades, a partir do que cada uma precisa. O calor humano, o olho no olho, é o diferencial aqui — diz Marlene.

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