Evangélicos colocam Bolsonaro entre cruz e espada em projeto de jogatina

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Brazil's President Jair Bolsonaro looks on, next to Brazil's Minister of Women, Family and Human Rights, Damares Alves, during a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, September 2, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro e a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. Foto: Adriano Machado/Reuters

Em um dos muitos grandes momentos que renderiam um filme à parte da reunião ministerial de 22 de abril de 2020, Paulo Guedes, titular da Economia, mirou em Damares Alves (Direitos Humanos) e desferiu a seguinte pílula de sabedoria: “Deixa cada um se foder do jeito que quiser”.

Na reunião, que deveria debater ações sobre a maior crise sanitária da história, Damares travava um embate com a ala econômica, esta aliada à pasta de Turismo, sobre a construção de cassinos associados a resorts no país. Era a fórmula sugerida por Guedes e companhia para alavancar o desenvolvimento nacional. O exemplo era Singapura.

“Aquilo não atrapalha ninguém. Deixa cada um se foder. Ô Damares. Damares. Damares. Deixa cada um ... Damares. Damares. O presidente, o presidente fala em liberdade. Deixa cada um se foder do jeito que quiser. Principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário. Deixa o cara se foder, pô! Não tem ... lá não entra nenhum, lá não entra nenhum brasileirinho”, filosofou o Posto Ipiranga.

Damares insistia que aquilo era coisa do Diabo.

Um ano e oito meses se passaram desde então. Jair Bolsonaro, que assistia à conversa paralela sem tomar posição, hoje não pensa duas vezes sobre qual lado ceder.

Se dependesse dos votos angariados pelas ações de Paulo Guedes na economia, o capitão estaria com os dias contados como presidente. Em compensação, Damares se mostrou, para a estratégia bolsonarista, um dos grandes acertos de sua gestão.

Ela é uma espécie de embaixadora do governo no mundo evangélico, que hoje representa quase um terço da população brasileira. É difícil, mas não impossível, que Bolsonaro consiga um novo mandato mostrando uma banana para os antigos fãs da Faria Lima. O mesmo não se pode dizer sobre os líderes religiosos.

Nesta semana, por pouco a Câmara não votou em caráter de urgência, com o beneplácito de Arthur Lira (PP-AL) e companhia, um projeto que define os jogos de azar como atividades econômicas a serem fiscalizadas por um órgão específico, a exemplo das agências reguladoras de energia, saúde ou de telecomunicações. A bancada religiosa se mobilizou e trancou a pauta.

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Não demorou muito para que Bolsonaro sinalizasse para as lideranças evangélicas que, mesmo se o projeto avançar, ele seria vetado pela caneta presidencial.

É o que garante o pastor Silas Malafaia, uma das personalidades mais engajadas em brecar a legalização dos jogos. Malafaia disse ter conversado com o presidente após publicar um vídeo classificando o projeto de “desgraça social”. Ele contou ter ouvido do outro lado da linha que a proposta dos deputados era “absurda”.

Cezinha de Madureira (PSD-SP), líder da bancada evangélica, também disse, ao jornal O Globo, ter recebido a garantia do presidente de que o projeto não avançará. Para ele, a legalização dos jogos de azar poderia alimentar “vícios” e prejudicar a população idosa.

Recado dado, recado ouvido. A menos de um ano da eleição, tudo o que Bolsonaro não quer é comprar essa briga com a turma.

Mesmo que, para isso, tenha de ignorar os ensinamentos de seu Posto Ipiranga: “Deixa o cara se foder”.

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