Projeto liderado pela família de Lélia González disponibiliza escritos da intelectual na internet

Gisele Araújo
·4 minuto de leitura

De avó carinhosa e criativa à referência mundial no estudo de raça e gênero, no último ano o nome da socióloga e antropóloga Lélia Gonzalez teve um salto de buscas no Google de mais de 250%. Parte dessa procura foi impulsionada pela descoberta de seu trabalho por usuários de redes sociais. Pensando em divulgar a trajetória da intelectual, sua família criou o projeto Lélia Gonzalez Vive, em parceria com a Ong Nossa Causa.

O projeto reúne e disponibiliza na internet escritos de Lélia. O objetivo é facilitar o acesso às ideias da intelectual em uma linguagem mais moderna, e com design voltado para o meio digital.

— Tudo foi feito para facilitar a leitura e expandir o pensamento dela. É muito importante a leitura de sua obra, para a gente entender a situação real da sociedade brasileira, principalmente da parte negra da população. Lélia te carrega para o livro e são pensamentos fortes, falados de maneira engraçada — explica sua neta — Melina de Lima.

Ela relembra que houve um aumento significativo pela procura dos textos de sua avó após Lélia ter sido mencionada no documentário “Amarelo: é tudo pra ontem”, do rapper Emicida, lançado em dezembro de 2020 pela Netflix. O filme reproduz o comentário da filósofa Angela Davis, que, em sua passagem pelo Brasil, em 2019, disse que aprendia mais com Lélia Gonzalez do que os brasileiros poderiam aprender com ela.

— O documentário do Emicida deu muita visibilidade para a Lélia, um boom de seguidores no Instagram. Nós estamos sempre a par do que está acontecendo e cuidamos para que o legado dela seja respeitado, atuando e verificando se o que é dito é verdade — afirma Melina, que recorda já ter combatido informações falsas envolvendo o nome de Lélia Gonzalez.

— Ela já foi citada como lésbica, coisa que não era. Lélia nunca assumiu sua sexualidade desta forma. Creio que isso foi dito, porque, quando ninguém falava sobre isso, a pauta LGBTQI+ já estava na pauta dela. Muita gente confundiu. É um orgulho para mim, como mulher negra e lésbica, saber que minha avó tinha total consciência não só da questão racial, como também de gênero e sexualidade — diz Melina.

A historiadora de 35 anos, conta que, durante a faculdade, teve receio de revelar aos colegas de turma que é neta de Lélia Gonzalez, pelas possíveis cobranças e comparações. Ela lamenta ter convivido pouco com a avó.

— Infelizmente, quando ela faleceu eu tinha 8 anos. Lélia era uma avó muito carinhosa e incitava a criatividade na gente. Eu e meu irmão chegávamos na casa dela e recebíamos papel para a gente desenhar. Era uma convivência normal de avó e netos, e mal sabia eu que, enquanto eu estava ali desenhando um sol no papel, ela talvez estivesse criando um pensamento incrível na máquina de escrever — reflete Melina.

Lélia Gonzalez foi percursora de debates interseccionais sobre raça e gênero, atuou na fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), além de ter integrado o primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e participado dos debates para elaboração da Constituição de 1988. Ela morreu em 1994, aos 59 anos, vítima de um infarto.

Acervo

A maioria dos textos originais de Lélia Gonzalez estão guardados em um terreiro de candomblé no município fluminense de Itaguaí. O local foi escolhido pela intelectual antes de sua morte, e não está aberto ao público. A reunião dos textos de Lélia Gonzalez para o projeto Projeto “Lélia Gonzalez Vive” foi possível, principalmente, pelo trabalho de Flávia Rios, professora adjunta da Universidade Federal Fluminense (UFF) e integrante do Comitê Científico do AFRO/CEBRAP, que vem pesquisando a vida e obra de González desde o início dos anos 2000.

A pesquisadora foi responsável por compilar os textos de Lélia, junto com a socióloga Márcia Lima (USP), para a produção do livro “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano”, publicado pela Editora Zahar. Mesmo depois de quase 30 anos de sua morte, apenas em 2020 uma grande editora se interessou em publicar os escritos de Lélia González.

— Há 20 anos atrás, comecei o trabalho de reorganizar e trazer as obras de Lélia. Desde então, temos muitos avanços e mais informações, além do interesse de jovens de encontrar e analisar essas obras. As grandes editoras comerciais também estão interessadas em publicar, e este tem sido um movimento cultural de divulgar o pensamento de intelectuais como Lélia. — encerra Flávia.

SERVIÇO

Lélia Gonzalez ViveSite da Nossa Causa: www.nossacausa.comInstagram: @nossacausa e @leliagonzalezoficialTwitter: @nossacausaFacebook: /nossacausa