Projeto de museus e teleférico na Chapada dos Veadeiros é criticada por moradores, em meio às ameaças do fogo e de perda de área protegida

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RIO — Sob constante ameaça do fogo, que há cinco dias é combatido por bombeiros e brigadistas voluntários, e ainda de um projeto de lei — até então parado na Câmara dos Deputados — que visa diminuir em mais de dois terços suas áreas de proteção, o paraíso ecológico da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, está prestes a receber intervenções em parte de seu território anunciadas pelo governo estadual, e que podem acabar representando mais um perigo ao Cerrado, de acordo com a opinião de alguns moradores, que questionam a iniciativa, taxada por eles de "megalomaníaca". O chamado Projeto Gênesis, divulgado na semana passada pelo governador Ronaldo Caiado (DEM) prevê, por exemplo, a construção de museus e estruturas como a de um teleférico em local conhecido hoje como Parque Estadual Águas do Paraíso — interditado neste momento por conta do incêndio.

"A Chapada dos Veadeiros e as águas do Cerrado estão em peigo! (...) Um projeto megalomaníaco e de alto impacto ambiental, que demonstra o distanciamento que o governo e os empresários envolvidos têm com a tal 'sustentabilidade', a preservação do Cerrado e as pautas mais urgentes", criticaram páginas nas redes sociais dedicadas à preservação da Chapada dos Veadeiros. "Chega de colonizar e capitalizar a Chapada! Gênesis aqui não!", concluiu o texto, reproduzido por eles. O manifesto também afirma que não houve consulta à sociedade civil.

Procurado, o governo estadual de Goiás ainda não se manifestou sobre as críticas e questionamentos.

No lançamento do projeto, na sexta-feira passada (10) — que tem como objetivo o desenvolvimento de áreas do nordeste goiano —, o governador Ronaldo Caiado destacou que a área, na Chapada dos Veadeiros, receberá "um conjunto de equipamentos, constituídos por edificações que se destacam na arquitetura, na vanguarda e na aderência à proposta de integração do homem com a natureza e o conhecimento".

De acordo com o governo estadual, o projeto prevê que o Parque Águas do Paraíso terá um centro de desenvolvimento sustentável, um espaço de 800 m² chamado de Homem e Natureza, "para contemplação da natureza", um Museu das Águas, estruturado por três grandes pilares em ângulo, "proporcionando movimento e leveza ao equipamento", um Templo à Natureza, em formato de gota, um Museu do Amanhã — sobre o qual não foram dados maiores detalhes — e ainda a instalação de um domo geodésico.

Ao todo, o lançamento do projeto, que visa atrair a iniciativa privada para intervir e gerir equipamentos em 20 municípios do nordeste goiano, tem um orçamento previsto de R$ 3,9 milhões.

— Vamos atrair investimentos de empresas nacionais e internacionais para construir o maior aporte de turismo que Goiás jamais viu, impulsionando a economia dessa que já foi uma das regiões mais carentes do Estado — disse Caiado no lançamento do "Gênesis".

Na ocasião, também esteve presente o secretário nacional de Desenvolvimento e Competitividade do Ministério do Turismo, Willian França Cordeiro, que elogiou o programa e as concessões à iniciativa privada.

— O governador teve essa sensibilidade de enxergar que o investimento no turismo quem faz é o empresário. Governo ordena, instrui, estabelece regras, abre caminhos — disse.

O cronograma divulgado pelo governo de Goiás prevê o início do programa já agora, em setembro de 2021, e entrega das intervenções estruturantes está prevista para junho de 2022. A agenda continua até 2030.

Cerrado em chamas

Nesta quinta-feira, continua o combate ao incêndio de grandes proporções que atinge a Chapada dos Veadeiros desde domingo, quando cerca de 100 turistas precisaram ser resgatados às pressas do Vale da Lua após ficarem isolados. A origem do fogo ainda é investigada pela Polícia Civil.

Assim como na quarta-feira, 150 homens, entre Corpo de Bomberos de Goiás, servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICM-Bio), Prevfogo e brigadistas voluntários de ONGs locais, participam do trabalho, com auxílio de três aeronaves.

De acordo com o capitão Luiz Antônio Dias Araújo, que coordena a força-tarefa, os trabalhos estavam concentrados no fim desta quarta-feira (15) no Rio dos Couros, que é a última barreira natural que separa as chamas justsamente do Parque Estadual Águas do Paraíso.

Segundo comunicado divulgado pela corporação, há ainda duas grandes frentes de chamas ativas na Área de Preservação Ambiental Pouso Alto.

Durante o combate desta quarta, os militares contam que foram surpreendido por vários redemoinhos, que acabam levando chispas por longas distâncias, dificultando ainda mais o combate. Um dos grupos passou a noite no combate. O clima seco, a topografia do local, as altas temperaturas e os ventos fortes dificultam o trabalho das equipes.

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