Projeto de musicoterapia em abrigos do Degase participa de concurso internacional e é citado em publicação da ONU

Vera Araújo
·3 minuto de leitura

RIO — Chocalhos, surdos, gongos, atabaques, tamborins, pandeiros. Tudo junto, somado a vozes que ora cantam em harmonia, ora desafinam. É com essa mistura de sons que cinco musicoterapeutas trabalham com jovens que cumprem medidas em quatro unidades do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase). Eles usam a música como instrumento de transformação social. Além dos internos, a iniciativa conquistou o reconhecimento internacional. O projeto “Degase: musicoterapia para adolescentes em conflito com a lei” ganhou destaque numa publicação da Organização das Nações Unidas (ONU) ao concorrer, no ano passado, com outros 150 trabalhos em todo o mundo.

O compêndio em comemoração aos 75 anos da ONU mostra trabalhos nos quais a música aparece como meio de desenvolvimento sustentável. O projeto com os adolescentes infratores do Rio foi selecionado ao lado de iniciativas de outros 38 países e publicado no mês passado. Segundo o Degase, no Brasil, só quatro trabalhos foram escolhidos. Entusiasta da atividade, a musicoterapeuta do Degase Mariane Oselame foi quem fez a inscrição do programa, ressaltando que o do Rio foi o único na categoria justiça e equidade social.

— Passa longe de uma aula de música. Ninguém está aqui para ver se eles sabem tocar um instrumento, se sabem cantar. A gente não costuma intervir nas sessões, que podem ser em grupo ou individuais. Eles têm, digamos, a batuta. Analisamos como eles lidam com seus medos, aflições, dilemas. Em algum momento da vida, eles vão usar os recursos que absorveram nas atividades para fazer suas escolhas — diz Mariane que, por conta da pandemia, tem feito as atividades individualmente na maioria das vezes.

‘Elas vêm prontas’

A rotatividade dos adolescentes é grande nos quatro abrigos do Degase que atendem, em média, 60 alunos. Segundo Mariane, como as aulas são de improviso, sempre há surpresas. Ela atua na unidade feminina do Centro de Socioeducação Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, na Ilha do Governador.

— É impressionante o poder de criação delas. Elas já vêm prontas. Eu apenas as acompanho. O objetivo é fazer com que as meninas tenham outros recursos, ferramentas emocionais, para que, mais adiante, consigam fazer suas escolhas sozinhas. Não posso dizer que a musicoterapia vai mudar a vida delas, mas estamos plantando uma semente, mostrando outras possibilidades — conta.

Os ritmos apresentados aos alunos são variados, mas o funk e o pagode fazem mais sucesso. Mariane conta que, certa vez, as adolescentes estavam agitadas. Mas ela disse as palavras mágicas: “Botem para tocar”. As jovens botaram um “pancadão”, cantaram letras que falavam de perdas. X, de 17 anos, conta como foi a sua experiência naquele dia:

— Toquei muito alto. Fiz barulho. Quanto mais alto, mais me sentia livre. Também dancei muito — diz ela.

A jovem, que cumpre medida em semiliberdade, conta que, há dois anos, foi expulsa pela milícia de onde morava, numa favela na Zona Oeste, por ser transexual. Passou, então, a morar na rua até ser detida ao furtar um objeto numa loja, em Copacabana. O sonho dela é ser jogadora de vôlei.

— Quero fazer teste para o Flamengo, ser líbero — conta ela.

Para o diretor-geral do Degase, o major da PM Márcio Rocha, o reconhecimento do programa de musicoterapia trouxe mais ânimo aos servidores do Degase:

— Tivemos restrições nas visitas por conta da pandemia. Isso fez com que algumas atividades fossem reduzidas, mas os profissionais não pararam de trabalhar. Houve um esforço muito grande para manter a saúde mental dos adolescentes. A publicação da ONU veio como um prêmio por tanta dedicação. Fez bem para todo mundo.