Projeto do Observatório de Favelas espalha pelas ruas imagens de 16 fotógrafos que valorizam as comunidades e seus habitantes

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RIO — Num dia de verão no Rio, o bibliotecário Vicente Costa, morador do Morro de São Carlos, no Estácio, mirou sua câmera para a Pedra do Leme e fez um clique. Na cena enquadrada, um grupo de nove meninos negros sob o sol se preparava para dar um salto no mar. Naquele momento, Vicente tinha 26 anos. Hoje, aos 31, ele tem a oportunidade de ver a imagem exposta como um lambe-lambe na Rua Sacadura Cabral, na Gamboa, lugar cheio de significados para a população negra. A iniciativa é fruto da oficina Corpo Morada — Favela como Patrimônio da Cidade, que reúne 16 fotógrafos que se destacam pelo olhar sobre a periferia e seus moradores e cujos trabalhos agora podem ser apreciados pelas ruas da cidade.

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As fotos do projeto, que comemora os 20 anos do coletivo Observatório de Favelas, estão em muros da Maré e de Ramos, na Zona Norte; da Gamboa e da Saúde, no Centro; e da Morro Dona Marta, em Botafogo. Todas contam com um QR Code para visitação virtual em 360º de uma exposição de fotografias na Galeria 535, na sede do Observatório de Favelas, na Maré.

Durante dois meses, os participantes da oficina discutiram a importância do território e da estética da linguagem fotográfica como formas de representação e pertencimento. A seleção de fotografias foi resultado da curadoria de todos os 16 fotógrafos. Para Vicente (@vicentecostaphotos), a imagem dos meninos negros na Praia do Leme, na Zona Sul, provoca reflexão:

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— A foto traz a discussão sobre onde cada pessoa pode e deve frequentar. No fim, essa foto é um olhar sobre o acesso a oportunidades.

O cientista social Aruan Braga, coordenador de políticas urbanas do observatório e idealizador do projeto, destaca o poder que essas fotografias têm de transformar a interpretação que a maioria da população tem sobre as favelas:

— A gente quer mudar o olhar que carregam sobre as favelas como um lugar de carência, de ausência ou de violência. Nossa ideia é ir além do espaço construído e incorporar a pessoa que molda esse espaço periférico.

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A estudante de museologia Lorrayne Rodrigues, conhecida como Lo Rodrigues (@lorodrigues___), escolheu uma foto da Igreja da Penha, na Zona Norte, tirada em 2018, para compor a mostra. Exposto no Viaduto da Rua Uranos, em Ramos, onde mora a universitária, o lambe-lambe traz a pulseira do Santuário amarrada e, ao fundo, o bairro da Penha iluminado à noite.

— A mensagem é de reconhecimento da Zona Norte como lugar de cultura, resistência e força. Independentemente de religião, a Igreja da Penha é um símbolo cultural do nosso território, assim como o Cacique de Ramos e a quadra da Imperatriz — explica Lo, que, por falta de dinheiro para uma câmera, quase desistiu da carreira de fotógrafa. — Aí vem o Corpo Morada e fala: “podem fotos de celular!”. É importante valorizar a fotografia como arte e investir na galera.

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