Projeto oferece moradia para dar independência a jovens com deficiência

No bairro do Flamengo, Zona Sul do Rio, o antigo Hotel Novo Mundo foi transformado, em 2019, em um residencial para estudantes. Desde novembro do ano passado, o prédio abriga outra novidade: instalou-se no 11º andar o Instituto JNG, projeto pioneiro de moradia independente para adultos com deficiência intelectual e autismo. A ONG à frente da empreitada reúne profissionais de saúde, educadores e terapeutas, além de arquitetos e urbanistas.

Da janela do seu quarto, Pedro de Sá Baião, de 31 anos, tem vista de tirar o fôlego: a paisagem, um desfile de cartões-postais, inclui a Baía de Guanabara, além do Pão de Açúcar e do Cristo Redentor. Há seis meses, o rapaz, que tem síndrome de Down, deixou o conforto e a segurança da casa dos pais, no Leblon, para realizar o sonho de morar sozinho.

— Desejava viver essa experiência nova, criar independência, num lugar onde pudesse ter o meu próprio espaço e desenvolver minhas manias. Tem sido uma experiência maravilhosa — diz Pedro que, além de tomar conta de seus domínios, vai sozinho para o campus da Universidade Estácio de Sá, na Barra da Tijuca, onde cursa o terceiro período de Produção Audiovisual, e agora só volta à casa dos pais como visitante.

O Hotel Novo Mundo é administrado pela Uliving, companhia que opera unidades em outras cidades brasileiras, como São Paulo, Ribeirão Preto e Campinas. A rede pratica um conceito de moradia compartilhada entre pessoas que buscam senso de comunidade, economia e estilo de vida sustentável.

No endereço do Rio, o projeto do Instituto JNG foi inaugurado com capacidade para receber de dez a 12 moradores, mas busca outros parceiros para se expandir. Por enquanto, a iniciativa só funciona na capital carioca, mas o público potencial é grande. De acordo com dados do último censo, de 2010, no Brasil existem 17 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência —nesse grupo, 2,6 milhões têm algum tipo de deficiência mental e intelectual.

Pedro é um dos atuais seis moradores do 11º andar, e há um sétimo a caminho. Eles têm entre 23 e 32 anos e a maioria já vivia no Rio.

Cada um dos pioneiros participantes do projeto ocupa um pequeno apartamento com banheiro, quarto e cozinha. Nesse espaço, podem exercer sua individualidade e desenvolver uma rotina própria. A convivência coletiva é incentivada nas diversas áreas de uso comum, como sala de jogos, área de trabalho e estudo, um pequeno cinema e cozinha comunitária.

— A gente busca ampliar os horizontes desse jovem que vai se converter em adulto. A ideia do projeto é promover autonomia e vida independente, através da perspectiva de sair da casa dos pais, e também fazer conexão com empresas para eles trabalharem. Aqui a gente constrói pontes humanas — explica Flávia Poppe, diretora e fundadora do Instituto JNG.

Para os moradores que participam do projeto, o apoio vai além do tradicional serviço de quarto: uma equipe dá plantão durante 24 horas em todos os dias da semana. O papel desses profissionais é auxiliar os jovens no que precisarem, seja na orientação para tomar uma medicação ou até acompanhar um exame admissional de emprego, missão cumprida ontem pela psicopedagoga Aline Bastos, de 41 anos. Esse time, composto por seis pessoas, ocupa o mesmo andar e conta com o suporte de um colegiado de especialistas formado por psicólogo, assistente social e pedagogo.

— Nosso trabalho aqui é desenvolver habilidades para a criação da autonomia de cada um — diz Aline.

O projeto foi batizado com as iniciais de três jovens que o inspiraram: João, Nicolas e Gabriela. A fundadora Flávia Poppe é mãe de Nicolas, de 30 anos, diagnosticado com transtorno do espectro do autismo, e o único dos três que aceitou morar no residencial.

Flávia conta que a ideia nasceu de sua angústia como mãe: depois de terminar a idade escolar, muitos destes jovens e seus pais não vislumbram um novo horizonte para eles na vida adulta. Em suas pesquisas, ela não encontrou referências no país, mas se interessou por um projeto na Inglaterra. O ingresso no Instituto JNG não sai barato. Bancado pelas famílias, o custo mensal de cada morador varia entre R$ 7,5 mil e 8 mil, incluídas despesas com aluguel, condomínio, internet, TV a cabo e o serviço personalizado 24h por dia com profissionais capacitados. Refeição e serviços médicos são cobrados a parte.

Assim como Pedro de Sá Baião, que também é ator e sonha trabalhar com cinema e TV, Manuela Araújo, de 27 anos disse que a decisão de sair da casa da mãe, com quem morava no Largo do Machado, foi a realização de um sonho antigo.

— Queria morar sozinha, ter minha independência, minha individualidade e liberdade. Estou gostando. É um aprendizado diário — afirma a jovem, que dá vazão a seu hobby na cozinha compartilhada, onde divide colheradas de brigadeiro, sua especialidade.

Luciano Elia, professor titular de Psicanálise do Instituto de Psicologia da UERJ, enxerga boas perspectivas no projeto, mas observa que singularidades devem ser respeitadas:

— Se pelo menos se levar em conta a escuta prévia desses sujeitos e do desejo deles, por que não? Desde que isso não seja muito tecnicista, o que acaba colocando as pessoas num lugar segregado da sociedade, acho que pode ser uma via. Pode ser interessante, se respeitadas as singularidades e sem trazer modelos prontos de autonomia para gerar demanda, o que seria mais um projeto que objetiva o lucro.

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