Projeto sequenciará genoma de 3.500 pessoas com doenças raras

GABRIEL ALVES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O alfabeto com o qual se escreve o DNA é bem curtinho, só tem quatro letras: A, T, C e G. Nos mais de três bilhões de pares de letras (ou, mais precisamente, bases nitrogenadas) que formam o nosso genoma, contudo, às vezes, apenas um errinho de ortografia pode implicar que a pessoa terá uma doença genética. Alterações genéticas são a explicação de mais de 60% das chamadas doenças raras — ou doenças órfãs —, que, por mais infrequentes que sejam, considerando os pacientes dos 9.600 tipos catalogados, totalizam 13 milhões de pessoas só no Brasil (6,2% da população). Um novo projeto, capitaneado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, pretende mapear o genoma de 3.500 pacientes com doenças raras do país e, com esse conhecimento, aumentar a chance de que essas pessoas tenham um tratamento mais adequado. Resultados de iniciativas semelhantes em países como EUA e Inglaterra permitiram melhorar a vida de cerca de um terço dos pacientes que ainda não tinham um diagnóstico fechado, explica o médico João Bosco Oliveira Filho, coordenador do projeto Genomas Raros. Antes de voltar para o Brasil, em 2012, e fundar uma empresa de diagnóstico (Genomika, que foi absorvida pelo Einstein), Oliveira trabalhava nos NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos EUA) investigando as possíveis causas das imunodeficiências primárias, doenças raras que geralmente culminam com infecções graves e complicações pós-vacinação. Com o surgimento e a popularização da tecnologia do sequenciamento de nova geração (NGS, na sigla em inglês), capaz de soletrar todo o genoma de uma pessoa em poucas horas e com custo reduzido, a investigação dos possíveis erros de redação em frases (genes) do DNA passou a ser empregada para caçar a causa de inúmeras doenças. "Até então era trabalho de formiguinha, investigando apenas um gene por vez. Hoje temos acesso ao genoma completo do paciente", explica Oliveira. Os genes são trechos de DNA que têm um ou mais papéis no funcionamento normal do organismo. Quando há incorreções, abre-se espaço para síndromes e doenças. Às vezes uma simples troca em uma das letras pode mudar completamente o destino de um ser humano. Ao saber onde essas mudanças acontecem, é possível tomar dois tipos de providência. A primeira é buscar um tratamento mais assertivo para aquele problema, como no caso de pacientes com epilepsia grave: alguns podem estar sofrendo por uma alteração no metabolismo da piridoxina (vitamina b6). Nesse caso, o curso da doença muda completamente apenas com a suplementação da vitamina, conta o médico. Outra medida que pode ser tomada é o aconselhamento genético. A pessoa e seu(sua) parceiro(a) recebem informações sobre as chances de a condição ser transmitidas para os descendentes e ajuda para um planejamento familiar adequado. O projeto Genomas Raros é integrante do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde), iniciativa que envolve o Ministério da Saúde e cinco hospitais (Oswaldo Cruz, HCor, Einstein, Moinhos de Vento e Sírio-Libanês). Os hospitais têm isenção de tributos, mas têm de investir em projetos para o aperfeiçoamento do SUS, em tópicos como redução de filas de espera; qualificação profissional; pesquisas relevantes para saúde pública; entre outras. Com esse novo projeto, que vai mapear o genoma de 3.500 indivíduos não diagnosticados (750 ainda em 2020), a meta é capacitar 17 centros de referência em doenças raras espalhados pelo país em temas que vão da forma de colher a amostra à interpretação do laudo. Serão investidos R$ 55 milhões até 2023. Será adquirido um sequenciador de alta capacidade a ser instalado na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em Recife e que, ao fim do projeto, será doado para o SUS, "o que contribui para a descentralização Sul-Sudeste", diz Oliveira. O outro centro de processamento fica no Einstein. Outras etapas envolvem a análise na nuvem de uma montanha de dados (um arquivo de texto de 1,5 gigabyte por amostra) e implementação de boas práticas na realização dos procedimentos e na maneira de emitir laudos. "Foi preciso fazer um balanço entre custo, qualidade, segurança e velocidade; toda a estrutura ficará disponível para o Ministério usar posteriormente", conta o médico. Com o laudo em mãos, médico assistente e especialistas podem discutir qual é a melhor conduta para cada paciente. "Há um subgrupo de pacientes muito graves em UTIs neonatais, e muitas dessas crianças estão lá por uma doença genética. Com esse projeto podemos demonstrar que, se houver diagnóstico, é possível modificar a conduta, reduzir mortalidade e mortalidade. Com isso também cai o custo, já que são pessoas que passam por múltiplos procedimentos e consultas", relata Oliveira. Além de acelerar o diagnóstico desses pacientes, os resultados também contribuirão para a criação de um banco de dados de genomas da população brasileira, o que vai ajudar a entender como algumas sequências de letrinhas estão associadas à ocorrência de certas doenças ou à proteção contra elas. Com isso, também será possível pensar em novas estratégias de tratamento e prevenção.