Projeto tenta medir subnotificações de Covid-19 no Brasil a partir de dados de plataforma colaborativa

Rafael Oliveira

RIO - Se o número de contaminados e de mortes por Covid-19 tem assustado os brasileiros, as subnotificações seguem como fator de preocupação. Embora os mais de 188.974 infectados e 13.149 óbitos registrados até quarta (13/5) mostrem o país como um dos mais afetados no planeta pelo novo coronavírus, pesquisadores sabem que os casos extraoficiais são ainda maiores. Entre os trabalhos criados para descobrir o tamanho real da crise no Brasil, um deles convoca a população para participar.

O projeto Colabcovidbr usa o sistema de cartografia colaborativa, semelhante ao usado nos aplicativos de trânsito. A partir de informações passadas pelos usuários de maneira anônima, a plataforma criada pela equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) distribui os casos pelo mapa do Brasil.

As informações são passadas de forma anônima através da plataforma disponível no site do projeto. Ao usuário, basta clicar num botão e preencher um questionário. O objetivo principal é contabilizar contaminações e mortes que escapam aos hospitais e testes.

- Notamos que havia um problema grave acerca de subnotificações no país, uma lacuna de informação pública. Temos um objetivo primeiramente acadêmico, que é saber se uma ferramenta construída sobre um mapa colaborativo pode ser útil em situações de emergência como a que estamos vivendo. Isso vai gerar conhecimento científico muito valioso para a nossa área de estudo - diz o professor André Mendonça, do departamento de Ciências Geodésicas da UFPR e do Departamento de Ciências Florestais da Ufam.

Ele destaca a busca por monitorar a pandemia.

- Obviamente, também queremos que haja uma maneira das pessoas em geral notificarem casos fácil e anonimamente pela web. Se adotada e massificada, poderia ser uma forma bastante importante de monitoramento da pandemia no Brasil, sob a ótica das pessoas comuns.

Lançada no fim de abril, a plataforma ainda conta com poucos registros. A grande maioria deles se refere a supostos casos ocorridos no Amazonas, quinto estado com mais notificações de infectados e mortos.

- Caso haja uma grande adesão, estes mapas podem fornecer dados para a administração pública, agentes de saúde, segurança pública e pessoas em geral. Seria possível, por exemplo, detectar um aumento ou declínio de casos em uma determinada localidade, ou saber se há evidências locais para se propor medidas de relaxamento ou de lockdown em regiões de uma cidade - complementa Mendonça.

Outras iniciativas tentam decifrar o tamanho da subnotificação no Brasil. Há trabalhos neste sentido sendo realizados na PUC-RJ, na Universidade de São Paulo e na Universidade Federal de Pelotas. A diferença do Colabcovidbr está justamente na metodologia colaborativa.

- Não é objetivo deste tipo de plataforma concorrer com os dados oficiais dos órgãos de saúde. Mas, sim, termos um outro lado, que são os casos que provavelmente não seriam notificados, aqueles em que não houve certeza do diagnóstico ou onde as pessoas não tiveram como buscar ajuda.