Projetos sociais ajudam jovens de comunidades cariocas a realizar sonho de ingressar no concorrido mundo da moda

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Até pouco tempo atrás, ingressar no concorrido mundo da moda era só um desejo distante para Bruna Soares, de 25 anos, moradora em Parada de Lucas, na Zona Norte do Rio. Alguns anos depois, a jovem desponta nesse universo como promessa. Já acumula alguns desfiles no currículo, é contratada por duas agências e, na capital paulista, participou, na última semana, da seletiva para a próxima edição do São Paulo Fashion Week, que começa na terça-feira. Seu destino começou a mudar ao se matricular, aos 16 anos, no Favela é Fashion, do Complexo do Alemão, onde morava na época. O projeto social, assim como o Top Model Favela, de Acari, é responsável por mostrar aos jovens de comunidade que é possível sonhar com uma carreira nas passarelas.

— O importante é não desistir. Nada é impossível se você tiver força de vontade e quiser crescer. É muita pressão. Passei por situações que quase me fizeram desistir, mas fui em frente — diz a modelo, que está lançando com amigos uma marca própria de roupas.

Outros participantes do projeto também estão se destacando. É o caso de Anne Bellize, de 9 anos. A menina, que desde bebê chama atenção pela beleza e aos 2 já tinha feito os primeiros trabalhos fotográficos, viu a realização do sonho ficar mais próxima ao entrar no Favela é Fashion. No ano passado foi eleita Miss Beleza BR Mirim, desbancando mais de 20 candidatas, e acumula participações nas novelas “Nos tempos do imperador” e “Um lugar ao sol”, da TV Globo, e no filme independente “Complexo, guerra dos 300”.

— O sonho dela é ser modelo, atriz e bailarina e viajar o mundo. O projeto ajuda muito. As meninas chegam tímidas e com baixa autoestima e saem preparadas — afirma a mãe de Anne, Vanessa Ferreira de Souza, de 36 anos, moradora na Nova Brasília, no Alemão.

A estudante de Nutrição Tainá da Silva, de 25 anos, moradora em Manguinhos, ainda não consegue viver só dá carreira de modelo, mas os primeiros passos foram dados. São mais de dez desfiles no currículo:

— Estou quase me formando e vou deixar a paixão pelas passarelas me levar.

Guilherme Andrade, de 27 anos, mira nos palcos de teatro, mas acredita que o projeto lhe abriu portas. Com algumas peças no currículo, entre elas o musical “Andança”, sobre a carreira de Beth Carvalho, diz que o Favela é Fashion foi um divisor de águas em sua vida.

— Entrei muito tímido. Não conseguia nem conversar. As aulas ajudaram a me soltar e foi através delas que peguei o gosto pelos palcos — conta o jovem.

Felipe Ferreira, de 30 anos, morador em Copacabana, que já fotografou para várias marcas nacionais e estrangeiras, diz que o caminho para o mundo da moda é árduo e ainda mais difícil para que vem de comunidade. A primeira barreira é a financeira:

— De cara você já tem de bancar um book de fotos para apresentar nas agências, que custa em torno de R$ 3 mil, sendo que não é garantia de trabalho. Sem contar que você precisa estar sempre com a pele boa, cabelos bem cuidados e ótima condição física. Tudo isso é investimento no sonho. Ainda tem o fato de as grandes agências preferirem apostar em modelos considerados dentro dos padrões mais aceitáveis pelo mercado, que significa ser alto, branco e de olhos claros. Mas nada disso me fez desistir — destaca o modelo, DJ e influencer, nascido em Bonsucesso.

Em Acari, desfile e convite para série

Enquanto o Favela é Fashion completa sua primeira década de existência realizando sonhos, o Top Model Favela, de Acari, formou no fim de outubro a primeira turma de 20 alunos. Uma das características do projeto é convidar personalidades das artes e olheiros do mundo da moda para seus desfiles.

Foi assim que surgiu o convite, do diretor Alexandre Henry, para Isabelly Matos, de 19, participar da série independente “Horas de Fúria”.

— Foram só duas cenas, uma com fala, mas já é um começo — comemora a jovem, que sonha ser modelo e atriz.

Para a segunda edição, cujas aulas estão previstas para iniciar no dia 19, o projeto já tem fila de mais de 200 candidatos.

Idealizadores com a mão na massa

Sem apoio, os projetos sobrevivem da dedicação dos idealizadores. No Favela é Fashion, as roupas usadas nos desfiles são recicladas e costuradas pela mãe da produtora Juliana Henrik. Se necessário, os próprios alunos põem a mão na massa.

— Realizar o sonho deles é realizar o meu — diz Juliana, que contabiliza 25 modelos encaminhados ao mundo da moda e prepara o próximo desfile para 10 de dezembro.

O Top Model Favela conta com ajuda de comerciantes locais para vestir, maquiar e cuidar dos cabelos das meninas.

— Alguns abraçaram ideia — diz o idealizador do Projeto, o modelo Rhyan Stevan.

Além de ensinar a desfilar, os dois projetos, que exigem rendimento escolar dos menores, trabalham a autoestima dos alunos.

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