Promessa de Tarcísio, sede do governo no centro é ideia antiga e vista com ceticismo

***ARQUIVO***SÃO BERNARDO DO CAMPO, SP, 29.10.2022 - O governador eleito Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). (Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO BERNARDO DO CAMPO, SP, 29.10.2022 - O governador eleito Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). (Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na praça Princesa Isabel, tomada pelo tráfico de drogas até meados deste ano, um palácio deverá ser erguido para acomodar as secretarias e o gabinete do Governo de São Paulo. A obra e o investimento serão de responsabilidades de uma empresa privada, que, em contrapartida, poderá cobrar do estado aluguel mensal por quase 30 anos.

O plano anunciado por Tarcísio de Freitas (Republicanos) como uma de suas propostas prioritárias no primeiro mandato, na verdade, fora desenhado pelo empresário e político Guilherme Afif Domingos há quase dez anos, sob a justificativa de valorizar o degradado centro da capital.

Na ocasião, Afif era o vice-governador na gestão de Geraldo Alckmin (2011 a 2015) e, por último, atuou na coordenação da campanha de Tarcísio ao lado do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD). Vitorioso na eleição deste ano, Tarcísio escalou Afif para conduzir o processo de transição.

A intenção de Afif/Tarcísio é a de transferir para o Campos Elíseos uma espécie de Esplanada, isto é, concentrando todas as secretarias estaduais e um gabinete do Executivo no mesmo espaço. A princípio, a residência do governador continuará no Palácio dos Bandeirantes.

A atual sede no bairro do Morumbi, na zona oeste da cidade, está a cerca de 15 km do centro da cidade de São Paulo.

O projeto de trazer a base do Executivo paulista para perto da cracolândia está em fase de conclusão e deverá ser viabilizado por meio de parceria público-privada. Pela complexidade da transferência, ela é vista com ceticismo até por aliados de Tarcísio.

E, na melhor das hipóteses, a mudança só será consolidada ao final dos quatro anos. Além de toda a parte burocrática, como o leilão, e a execução da obra, há o desafio em acomodar os dependentes químicos que habitam na região.

A área da praça Princesa Isabel tem uma área de 16,6 mil metros quadrados, delimitada pelas avenidas Duque de Caxias e Rio Branco e pelas ruas Helvétia e Guaianases.

Em entrevista à Rede Globo na segunda (31), Tarcísio disse que a ideia é rebaixar o terminal Princesa Isabel, que fica ao lado da praça. A área do terminal é de 10,6 mil metros quadrados.

O Palácio dos Campos Elíseos, na avenida Rio Branco e ao lado terminal Princesa Isabel, está fora do escopo e seguirá como as instalações do Museu das Favelas.

Já o Palácio dos Bandeirantes, inaugurado em 1965 no Morumbi, tem uma área construída de, pelo menos, 21 mil metros quadrados, além de área verde com quase 125 mil metros quadrados, estacionamento e heliponto. Um espaço bem superior comparado com ao futuro endereço.

O Palácio, ainda, abriga a residência oficial do governador e a maioria das 23 secretarias estaduais, além de órgãos como a Casa Civil e Casa Militar, e recebe quase 1.200 funcionários.

Em 2011, quando Afif propôs a ideia, houve uma movimentação, inclusive, para que o Sebrae transferisse a sua sede do Sebrae, no Paraíso, na zona sul paulistana, para o mesmo espaço.

Com concentração de quase toda a gestão num único local, Afif está convencido de que reduziria a perda de tempo com deslocamento, e o governo economizaria com os gastos com a manutenção predial.

No plano de governo de Tarcísio protocolado ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a justificativa da mudança tem como alvo "recuperar essa região degradada da cidade, além de reduzir as despesas com manutenção das estruturas do Estado, mediante a aquisição de terrenos e construção de edifícios próprios para abrigar unidades administrativas, através de parcerias com a iniciativa privada. Os prédios teriam amplo acesso e fruição, além de contar com alamedas de comércio e serviços".

Outra vantagem é o boom imobiliário na região central com a aglomeração de servidores, comissionados e funcionários terceirizados.

"É uma possibilidade concreta, porque beneficia o centro todo se o centro do poder estiver lá", disse Tarcísio ao longo da corrida eleitoral. "A cracolândia só vai acabar no dia em que as pessoas estiverem circulando no centro."

A região escolhida pelo governador pertence à Prefeitura de São Paulo, que não criaria resistência na desapropriação do imóvel pelo governo.

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) sancionou, em junho deste ano, um projeto de lei que transforma a praça em parque. A proposta foi apresentada pelo vereador Fábio Riva, líder do governo na Câmara Municipal, no momento em que a praça funcionava como o novo endereço da cracolândia.

Antes de começar a ser cercada por grades, a praça vinha recebendo recebido muitos moradores em situação de rua, um problema que se agravou na cidade durante a pandemia de Covid-19.

Procurado pela Folha nesta terça (1º), Afif preferiu não comentar o assunto. Tarcísio deixou claro à Globo que o projeto já existia e o incorporou em seu plano de governo.

Natural do Rio de Janeiro, Tarcísio já chamou, ao longo da corrida eleitoral, de Campos dos Elíseos o do tradicional bairro paulistano Campos Elíseos, o que serviu de munição para o seu adversário Fernando Haddad (PT) apontá-lo como forasteiro.