Promessas descumpridas à favela de Paraisópolis vão de parque a metrô

ARTUR RODRIGUES
***FOTO DE ARQUIVO*** São Paulo (SP), 04/12/2019 - Movimentação Comunidade Paraisópolis - Movimentação de pessoas em rua da comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, na tarde desta quarta-feira (04). Novos atos contra a atuação da PM estão sendo planejados pela população. (Foto: Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os moradores de Paraisópolis (na zona sul de SP) conhecem bem o roteiro. Em tempo de tragédia e eleições, políticos voltam os olhos para a comunidade levando promessas que, muitas vezes, não saem do papel.

Entre os compromissos jamais cumpridos, os moradores elencam como os principais estação de metrô, um parque, uma escola de música, milhares de moradias e canalização de um córrego.

A quase-cidade com mais de 100 mil habitantes --o mesmo que Itanhaém, no litoral, ou Assis, no interior--, é cercada por mansões do Morumbi e foi cenário de novela. Tem liderança organizada e projetos sociais bem-sucedidos.

Esse combo já ajudou a garantir melhorias à comunidade, mas também atraiu muitas promessas vazias.

Após a morte de nove jovens na favela durante ação policial em um baile funk no início do mês, o poder público correu para lá para tentar estancar a crise. Na segunda-feira (9), cerca de 20 representantes do primeiro escalão das gestões municipal, de Bruno Covas (PSDB), e estadual, de João Doria (PSDB), deram as caras na União de Moradores e do Comércio de Paraisópolis.

Os moradores entregaram uma lista com dezenas de pedidos, alguns dos quais já estavam entre compromissos assumidos pelo poder público em 2009, após uma ação da Polícia Militar contra o tráfico de drogas. A operação durou meses e acumulou denúncias de abusos.

Na época, a dobradinha José Serra (PSDB), no governo, e Gilberto Kassab (PSD), na prefeitura, criou um programa chamado Virada Social, que incluiu mais de uma centena de ações --muitas delas eram demandas já antigas da comunidade, em sua maioria obras municipais.

Parte das promessas foi cumprida, mas muitas não avançaram mais de uma década depois. "Muita coisa que aconteceu era coisa que tinha pouco impacto, eventos. É legal ter um evento, mas precisamos de ações de impacto que realmente transformem a vida da comunidade", diz Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e do Comércio de Paraisópolis.

Agora, a comunidade quer mudanças significativas. Uma nova demanda é uma subprefeitura Paraisópolis/Morumbi, para melhorar os serviços na comunidade. Outras, porém, são antigas, voltadas a suprir a falta de cultura e lazer na favela.

Gilson cita, por exemplo, uma escola de música e dança prometida há cerca de dez anos pela prefeitura. A comunidade tem dois projetos importantes que deveriam utilizar o espaço: uma orquestra sinfônica e um balé, que não têm imóvel próprio.

À frente de um dos projetos há nove anos, o maestro Paulo Rydlewski afirma que a orquestra só sobreviveu devido a uma parceria com uma escola técnica estadual, que cede um espaço improvisado para os músicos. "Ensaiamos com instrumentos que fazem menos barulho em salas vazias e, com os mais barulhentos, no auditório", diz.

A escola já tem um terreno e um projeto arquitetônico premiado internacionalmente, mas o espaço ocioso acabou sendo ocupado. "É um projeto perfeito para o tamanho da comunidade de Paraisópolis e as necessidades dela. E está lá engavetado", diz o maestro.

A orquestra hoje atende 61 jovens, mas poderia atender o triplo se tivesse recursos e a estrutura necessária.

Outro pedido antigo é um parque, que teve decreto assinado ainda em 2008, na gestão de Kassab. Após as mortes em Paraisópolis, no dia 1º, a gestão Bruno Covas (PSDB) passou a prometer o espaço verde para o próximo ano.

De acordo com a liderança comunitária, há ainda um passivo de 5.000 moradias para pessoas retiradas de áreas de risco na favela. "As famílias foram removidas a partir de 2011, recebem aluguel social e o dinheiro que pagam de aluguel dá para construir um prédio por mês", afirma Gilson.

Outro ponto é a canalização do córrego Antonico, que transborda e causa enchentes na comunidade várias vezes por ano.

"Nos dias de chuva, não dá para sair. A enxurrada leva carro, pessoas, embora para o córrego", diz o professor de caratê Francisco de Assis Diniz, 55. Há 12 anos em área de Paraisópolis afetada por enchentes, ele deixou de crer nas promessas de políticos.

A favela começou a passar por uma série de obras de urbanização na gestão de Kassab. "Parou na gestão do Fernando Haddad (PT)", diz Gilson. Embora vários programas tenham sofrido com falta de verbas devido à crise que se iniciava, o líder comunitário atribui a paralisação nos anos seguintes a uma represália política por não ter apoiado a reeleição de Dilma Rousseff em 2014.

Naquela eleição, Gilson, um ex-apoiador de Lula, ficou ao lado de Marina Silva, então no PSB, justamente devido a promessas descumpridas do governo federal.

A sensação em Paraisópolis é a de que os candidatos usam a favela para se promover, uma vez que é um lugar de fácil acesso e com nome conhecido. Em época de campanha eleitoral, políticos incluem a favela como parada obrigatória na capital.

Entre as promessas mais esperadas está a de uma estação de metrô que atendesse a comunidade. Em 2015, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) chegou a posar com uma placa: "Eu amo Paraisópolis e garanto que o monotrilho chegará na comunidade".

No entanto, pouco tempo depois a própria gestão do ex-governador afirmou que iria priorizar outras estações, mas que reafirmava o que disse em reunião com moradores, de que as obras foram planejadas para serem feitas em três etapas.

Questionado sobre o assunto, o Metrô, subordinado à gestão Doria, afirmou que foi criado um grupo de trabalho para discutir infraestrutura, o que inclui a linha 17-ouro do monotrilho.

A atual gestão municipal e as anteriores afirmam que Paraisópolis foi cenário de diversas melhorias.

A gestão Covas afirmou que a prefeitura entregou vários equipamentos, em comunicado que cita a obras de administrações anteriores, como a avenida Hebe Camargo.

A administração afirmou que a canalização do córrego Antonico é "extremamente complexa", envolvendo remoção de famílias, e que foi realizado o projeto executivo. Já sobre a escola de música, a gestão diz que há um projeto para remoção das pessoas que ocupam o terreno e continuidade da implantação.

Sobre o parque, a prefeitura diz que o espaço verde deve ser entregue em 2020 --a licitação foi feita em novembro.

O ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), por meio de assessoria, disse ser quem mais entregou obras em Paraisópolis.

"Além de grandes investimentos na urbanização e contenção de áreas de risco, que transformaram Paraisópolis em bairro formal, a gestão concluiu centenas de unidades habitacionais, o Centro Educacional Unificado (CEU), além de creches e escolas, cedeu o terreno para a construção de uma escola técnica (Etec) estadual, uma Assistência Médica Ambulatorial (AMA), uma Unidade Básica de Saúde (UBS), um Centro de Apoio Psicossocial (Caps) e realizou a implantação da avenida perimetral, batizada de Hebe Camargo", declara, em nota.

Haddad, por meio da assessoria, afirmou que represália política não foi marca de sua gestão. "Se não tivesse feito o viaduto da Perimetral Hebe Camargo e o corredor da avenida Giovanni Gronchi, os moradores de Paraisópolis ainda estariam gastando uma hora a mais para se deslocar", diz a assessoria do ex-prefeito.


COMPROMISSOS DE PAPEL

Estação de metrô

A gestão Geraldo Alckmin (PSDB) prometeu, em 2015, a estação Paraisópolis da linha 17-ouro do monotrilho do metrô, mas logo a estação deixou de ser prioridade e não saiu


Obras de urbanização

Algumas foram iniciadas na gestão de Gilberto Kassab, prefeito entre 2006 e 2012. No entanto, minguaram a partir de 2013, na gestão de Fernando Haddad (PT)


Escola de música"‚ Prometida na gestão Gilberto Kassab, teve projeto terminado, área desocupada, mas construção não foi adiante naquela e nas gestões seguintes


Canalização de córrego

Promessas de canalização do córrego ocorrem desde meados dos anos 2000. Até hoje não foram executadas


Moradia

Moradores afirmam que há um passivo de 5.000 moradias para pessoas que vivem com auxílio aluguel