Em descrédito, fala de Bolsonaro na TV valeu menos que um pequi roído

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Brazilian President Jair Bolsonaro waves at supporters who gathered outside the lawns of the Alvorada Palace to celebrate his birthday, in Brasilia, on March 21, 2021. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Com máscara, Jair Bolsonaro acena para apoiadores, muitos sem máscaras, em seu aniversário celebrado na frente do Palácio do Alvorada, em Brasília, em 21 de março de 2021. Foto: Evaristo Sá / AFP) (Via Getty Images)

A não ser que, na antevéspera, todas as pessoas para quem acenou e ofereceu bolo de aniversário estivessem vacinadas, valeu menos que um pequi roído o pronunciamento desta terça-feira 23 de Jair Bolsonaro em rede nacional.

Como lembrou um amigo no Twitter, o discurso do presidente teria lá sua valia se acontecesse em março do ano passado. Hoje o recado à nação chega com todos os furos e filtros do descrédito.

O pronunciamento à nação acontece após inúmeras, incontáveis ocasiões em que o presidente estimulou aglomerações, boicotou as medidas de isolamento, pregou contra o uso de máscara, fez pouco caso, em negociações e afirmações públicas, da importância da vacina e da sua obrigatoriedade. Ou seria outro o presidente que apostava na imunização do rebanho e, diante de aliados, declarou que a melhor vacina era pegar o vírus, como ele? Ou que citava seu histórico de atleta para bater no peito e dizer que não seria um resfriadinho que o derrubaria? Ou que foi à Justiça para barrar decisões dos governadores a respeito do isolamento social, única medida efetiva, embora dura, para conter a disseminação do vírus enquanto a vacina não vem?

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Em um ano e um mês, Bolsonaro teve tempo para passear de cavalo e jet ski com outros negacionistas da pandemia aos finais de semana, mas não para visitar médicos e doentes nos hospitais, que poderiam ser invadidos por apoiadores com câmeras para mostrar a verdade, segundo o próprio presidente, a respeito daquela histeria superdimensionada pela imprensa.

O nervosismo demonstrado pelo presidente na TV não era à toa. Hoje 44% dos brasileiros o consideram o maior responsável pela crise e 56% afirmam que ele é incapaz de liderar o país, segundo o Datafolha. O instituto aponta também que apenas 18% dizem confiar sempre no capitão.

“Bolsonaro mentiu” era a tônica do noticiário, contextualizando pela memória os diversos episódios que desdiziam o presidente apresentado em rede nacional. Nem precisava. As cenas do aniversário na antevéspera falavam por si.

Ali, entre dezenas, talvez centenas de apoiadores, se uma única pessoa estivesse contaminada, com ou sem sintomas, já havia colocado em risco uma multidão. A elas o presidente dedicou um pedaço de bolo com sabor de morte. Isso pouco antes de ir à TV e dizer que combateu a propagação da doença desde o começo.

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Quem conseguir ligar lé com cré poderá entender facilmente por que, enquanto outros países começam a reduzir os casos da doença, o Brasil contabiliza, no dia em que o presidente vai à TV, mais de 3.000 mortes por coronavírus. Para se ter uma ideia da tragédia, conforme levantamento do jornal O Globo, seriam necessários quase dez anos para um vírus como o da AIDS matar o mesmo número de pessoas que a Covid matou em apenas 24 horas.

A curva é ascendente e fará o país registrar 300 mil mortos já nesta quarta-feira 24. E daí?, diria outra versão do presidente que ele não ousou levar para a TV.

Talvez a notícia não seja que, desta vez, com um texto pronto e lido como um estudante de 12 anos na frente da sala, Bolsonaro mudou o tom — ao menos aquele tom de deboche que se tornou marca em seus encontros com apoiadores e lives semanais. Quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma Tubaína, lembra? (Quem se lembra pode associar agora a irresponsabilidade de apostar em medicamentos sem eficácia pelo número de pessoas que tentaram debelar o vírus com vermífugos, estouraram o fígado, e agora estão na fila do transplante.)

O que mudou, na verdade, foi o tom dos moradores das capitais que foram às janelas de suas casas e apartamentos refazer, com as panelas, os versos cantados por Gal Costa em “Vapor Barato”: “oh, sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer que não acredito mais em você”.

O grosso dos brasileiros já anunciou a predisposição em tomar qualquer outro navio que não desague novamente no colo de negacionistas bons de ameaças e péssimos de trabalho.

Quis o destino que o recorde de mortes, após quatro ministros da Saúde em um ano, e a resposta sonora às palavras desmentidas do presidente ocorressem no dia em que a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal reabilitou o ex-presidente Lula ao declarar a suspeição de Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro mastigado e cuspido pelo bolsonarismo, no julgamento do triplex do Guarujá. Não foi para os ministros, porém, que as panelas cantaram dessa vez.

Talvez por que seus títeres imaginem que a situação na pandemia fosse diferente com outra liderança política. Não necessariamente a do provável adversário de Bolsonaro em 2022.

Sabendo disso, o presidente foi a campo com o figurino que se viu. Estava sob pressão do pito tomado por boa parte do PIB que, basicamente, pediram ao governante para trabalhar e parar de molecagem.

Foi só por isso, e porque as pesquisas de opinião já alertam a tração do adversário, que Bolsonaro decidiu enfim dar satisfação à população —e não à minoria de apoiadores fanáticos que em breve não encherão um cercadinho. Não colou.

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