Covid no Brasil se explica mais por fatores socioeconômicos que idade e comorbidades, diz estudo

O Globo
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RIO - A propagação inicial de infecções e mortes por Covid-19 no Brasil foi mais afetada por padrões de vulnerabilidade socioeconômica do que pela faixa etária da população e prevalência de comorbidade por doença crônica existente. É o que mostra a pesquisa "Efeito das desigualdades socioeconômicas e vulnerabilidades na preparação do sistema de saúde e na resposta ao COVID-19 no Brasil: uma análise abrangente", publicado na revista científica Lancet.

O estudo indica que, embora a Covid-19 tenha sido registrada pela primeira vez em São Paulo e Rio de Janeiro, as taxas de mortalidade aumentaram rapidamente em estados com vulnerabilidades socioeconômicas marcantes, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Embora esses não fossem os estados com faixa etária mais avançada e carga de doenças crônicas fossem maiores, a pesquisa observou maior escassez de recursos hospitalares, tanto no setor público quanto no privado.

Os estados com maior Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) também são aqueles em que o SUS oferece maior cobertura de serviços de atenção primária à saúde e que têm maior cobertura do programa Bolsa Família. A pesquisa avaliou que as respostas dos governos locais foram heterogêneas, mas que, sem elas e sem o SUS, a carga desigual da Covid-19 teria sido ainda maior.

Crianças e adolescentes

Outro estudo inédito, desenvolvido pelo Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP, aponta que vulnerabilidades socioeconômicas e comorbidades aumentam o risco de mortalidade de crianças e adolescentes hospitalizados por Covid-19 no Brasil. O trabalho se baseou em dados do Ministério da Saúde sobre 5.857 pacientes menores de 20 anos hospitalizados pela doença.

Em comparação com pacientes previamente saudáveis, a pesquisa demonstrou que existe maior mortalidade por Covid-19 em crianças com doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). O artigo mostra ainda que, especialmente, quando associadas aos pacientes com mais de uma doença crônica, o risco de mortalidade apresentado era quase dez vezes maior.

Também foi observada maior mortalidade entre crianças das etnias parda, indígena e amarela, quando comparadas com crianças brancas, e que residentes das regiões Norte e Nordeste ou de cidades com menor desenvolvimento socioeconômico também tiveram maior chance de óbito.

Com esses dados, os pesquisadores propuseram a reclassificação da Covid-19 como uma sindemia, ou seja, o sinergismo de duas condições de saúde (Covid-19 e DCNT), que se potencializam mutuamente e são impulsionadas por desigualdades socioeconômicas estruturais.

— Nossos resultados são relevantes para a formulação de políticas de saúde pública, uma vez que o país ainda está planejando sua estratégia de vacinação e tentando encontrar a melhor maneira de enfrentar os desafios de saúde impostos pela pandemia da Covid-19 — afirmou Alexandre Archanjo Ferraro, professor associado do Departamento de Pediatria da FMUSP e um dos pesquisadores do estudo.