Proporção de jovens mortos por Covid-19 cresce em SP

VINICIUS TORRES FREIRE
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***ARQUIVO*** Ribeirão Pires, SP, BRASIL.- 15.03.2021 - Hospital de Campanha de Ribeirão Pires. (foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
***ARQUIVO*** Ribeirão Pires, SP, BRASIL.- 15.03.2021 - Hospital de Campanha de Ribeirão Pires. (foto: Rubens Cavallari/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Covid-19 leva cada vez mais jovens no estado de São Paulo. O número de mortes entre pessoas com menos de 60 anos de idade cresce mais rápido do que entre os idosos, desde o início do ano. As vítimas entre 20 e 59 anos eram cerca de 20% do total no começo de janeiro. Agora são 28%.

Do início de janeiro até meados de março, o número de mortes entre os moradores de São Paulo com 60 anos ou mais cresceu 94%. Entre aqueles na faixa de 40, 252%. Na casa dos 50, 172%.

O menor crescimento ocorreu entre pessoas com 90 anos ou mais: 15,5% (a vacinação deve ter ajudado, mas ainda não é possível cravar).

A doença também passou a matar mais gente sem "comorbidades". É um resultado esperado do espalhamento do coronavírus entre os mais jovens. O risco aumentou para quem não é idoso e é, em geral, saudável.

Os números são resultado de um levantamento do número de óbitos ocorridos em períodos de 12 dias de 21 de dezembro do ano passado até 19 de março, com dados do Seade, o "IBGE" do governo paulista. Entre os extremos do período analisado, a variação é estatisticamente significativa, diz Paulo Lotufo, epidemiologista e professor de medicina da USP.

A Covid-19 é ainda uma doença muito mais letal para idosos e pessoas com as ditas comorbidades, doenças preexistentes que facilitam a devastação causada pelo coronavírus. No estado de São Paulo, 2 de cada 100 pessoas (2%) com mais de 90 anos morreram da doença desde o início da epidemia. Entre todos aqueles com 60 anos ou mais, a Covid-19 levou para sempre 0,7%. Na casa dos 50, 0,15%.

Cerca de 79% de todos os mortos tinham alguma comorbidade. No estado de São Paulo, 60% tinham alguma doença do coração, 43% diabetes, 10% doença neurológica e quase 10% eram obesos, entre os agravantes mais comuns (a soma é maior do 100%, pois uma pessoa pode ter mais de uma comorbidade).

Pelos dados disponíveis apenas nessas estatísticas de mortalidade, não é possível afirmar com certeza que a vacinação tenha sido o fator de desaceleração do número de mortes entre os idosos, em particular aqueles com mais de 80 anos (nem é possível afirmar o contrário: os dados são apenas insuficientes).

No entanto, o crescimento do número de mortes entre janeiro e março foi menor no grupo de pessoas com 90 anos ou mais, as que foram vacinadas faz mais tempo: 15,5%. No total o aumento foi de 115% (na comparação dos mortos no período de 2 a 14 de janeiro com 7 a 19 de março)

Quanto aos mais jovens, ainda é preciso investigar melhor e esperar números mais precisos para saber o motivo de gente mais jovem estar morrendo mais, diz Lotufo.

Pode ser que um número maior de mais "jovens" (menores de 60) venha sendo infectado pelo vírus ou pode ser que a doença tenha se tornado de algum modo mais letal nesse grupo (ou uma combinação dos dois fatores). Pode ser que uma variante do vírus seria agora mais capaz de atingir os mais jovens.

Não é possível cravar com toda a certeza que o número de mortes de mais jovens aumentou, embora existam relatos de hospitais e outros indícios estatísticos relevantes de que tal mudança ocorreu.

As contas apresentadas aqui foram baseadas em dados de mortes notificadas por dia. Trata-se dessa mesma contagem que informa ao país o número de mortes diário, que foi de 2.730 nesta sexta (19.

Isto é, o número de mortes de Covid-19 confirmadas naquele dia, não das mortes ocorridas naquele dia. Devido a atrasos de registros, o número de óbitos ocorridos em cada dia apenas tem alguma precisão depois de um mês ou um pouco mais.

Em resumo, o problema é que o número de mortes notificadas em um dia pode, pois, estar poluído por dados mais antigos, em tese. No entanto e na verdade, tem havido uma convergência dos números de mortes notificadas e ocorridas em cada dia.

Além do mais, as estatísticas de crescimento do número de mortes notificadas de mais jovens mostra uma tendência regular de crescimento desde fevereiro. Os dados de mortes por data de início de sintomas da doença indicam a mesma tendência até meados de fevereiro, segundo análise de uma compilação de dados feita pelo Seade.

Nessa contagem, o crescimento de número de mortes é mais rápido entre o grupo dos 40 e 50 anos. Em meados de janeiro, as pessoas de 40 anos que eram infectadas e viriam a morrer eram 5,9% do total. Em meados de fevereiro, dado mais recente confiável, mais de 8%. Entre aqueles na casa dos 50, o aumento foi de 11,8% para 14,7% do total.

Além desses indícios, relatos de médicos intensivistas, de UTIs, e estatísticas parciais, de cada hospital, reforçam os dados. A curva de crescimento do número de óbitos notificados está associada de muito perto o crescimento das internações em UTIs (uma correlação de 97% desde agosto de 2020). O conjunto de estatísticas, relatos e tendências parece corroborar os números de aumento de mortes notificadas de mais jovens.