Prorrogação do auxílio emergencial depende da pandemia, diz Guedes

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O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta terça-feira que a prorrogação do auxílio emergencial depende do avanço da pandemia de Covid-19. De acordo com ele, se a pandemia seguir, as camadas de proteção serão renovadas.

Após deixar um evento do setor financeiro em São Paulo, Guedes foi perguntado por jornalistas se o auxílio será prorrogado e por quanto tempo. Ele respondeu:

— Depende da pandemia. Se a pandemia continuar conosco, nós temos que ir renovando as camadas de proteção. Se a pandemia recua, nós podemos já passar pro Bolsa Família.

Mais cedo, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), defendeu a extensão do auxílio emergencial por mais “um ou dois meses”, antes da implantação do que ele chama de “um programa social mais permanente” no Brasil.

— (O auxílio emergencial ) pode, eventualmente, ser editado mais um ou dois meses enquanto não há implantação de um programa perene de assistência social. É isso que o Congresso Nacional fará, ou como protagonista ou como coadjuvante, não importa — disse Pacheco.

Como o EXTRA revelou no sábado, o governo avalia a possibilidade de prorrogar o auxílio emergencial — previsto para durar quatro meses em 2021 — e adiar a reforma do Bolsa Família, inicialmente prevista para começar a valer em agosto.

Diante de uma possível terceira onda de Covid-19 e níveis de desemprego e pobreza em alta, auxiliares do presidente defendem o auxílio como uma forma mais eficaz de melhorar a popularidade de Jair Bolsonaro e agradar a parlamentares da base aliada.

A justificativa para a estratégia é que o auxílio emergencial é mais abrangente. São 39,1 milhões de famílias beneficiárias, contra 14,69 milhões no Bolsa Família. O valor do auxílio hoje é de R$ 250, maior que a média de R$ 190 recebidos pelos domicílios inscritos no programa permanente.

Durante o evento, Guedes sugeriu distribuir parte de valores arrecadados com venda de estatais diretamente para a população mais vulnerável. Seria um programa de “distribuição de riqueza” para além do Bolsa Família, disse Guedes.

— O Estado brasileiro tem muitos recursos. Então, você fala o seguinte: “bom, se eu vender uma estatal, eu reduzo a dívida pública”. Só que ninguém tem incentivo para vender. Então se eu vender uma estatal por 100, quem sabe se eu pegar 20% e jogar pros mais pobres? Distribuição de riqueza, não só de renda. As estatais pertencem ao povo brasileiro. Oitenta por cento eu vou reduzir a dívida, mas vinte por cento eu vou distribuir — disse o ministro, em evento do setor financeiro.

Para Guedes, atrelar o resultado da venda de estatais a um programa como esse pode ser um incentivo para acelerar as privatizações, que pouco avançaram durante o governo Jair Bolsonaro.

— Uma coisa é transferência de renda. “Olha, tá aqui um bolsa um Bolsa Família”. Agora , se privatizar “A”, “B” e “C”, dobrou o Bolsa Família nesse ano. Se não vender nada, não vem mais nada. Não consegui vender nada… — disse o ministro.

Guedes também disse que isso pode acontecer com dividendos de estatais depois do fechamento de empresas públicas deficitárias.

— Tenho R$ 30 bilhões de dividendos aqui, mas gasto R$ 30 bilhões para estatais dependentes do lado de lá. Um consome o outro. Quem sabe se eu fechar essas dependentes isso aqui ou vender, sobra esse dividendo aqui e eu dou uma chuveirada pro pessoal mais frágil — disse o ministro.

— Ou seja, tem não só o Bolsa Família, que é recorrente, mas tem de vez em quando um bônus de capitalismo popular, sim, quando eu vendo uma estatal, celebrem, está aqui dinheiro os mais frágeis. Isso pertence a vocês — afirmou.

O ministro lembrou o discurso de quem é contra as privatizações, citando que as estatais “são do povo brasileiro”.

— As estatais não são do povo brasileiro? Não é o que se diz? “Não pode vender estatal não, porque é do povo”. Não, eu quero vender pra poder entregar ela pro povo. Estamos desenvolvendo uma ideia dessa também. Vamos estimular, quem sabe, a gente acelera um pouco as privatizações. E a gente melhora o problema da desigualdade social — completou.

Guedes defendeu a aceleração das privatizações e reformas para abrir o caminho da retomada do crescimento sustentável e diz que se o PIB alcançar entre 4,5% e 5% esse ano, o Brasil vai “embalar”.

— O Brasil incontornavelmente terá que ir em direção aos mercados cada vez mais. Nós vamos acelerar as privatizações, nós vamos fazer essas reformas e isso abre um caminho de retomada do crescimento sustentável – declarou.

Para ele, substituir a recuperação cíclica da economia baseada em consumo por uma retomada sustentável baseada em investimento – concessões, privatizaçãoes, saneamento, infraestrutura e logística – é o grande desafio do país.

— Esse é o grande desafio a frente e o Brasil está mostrando que vai chegar lá. Como disse o Mansueto (Almeida, economista-chefe do BTG), crescendo 4,5% ou 5% esse ano, embala – declarou o ministro fazendo referência a estimativa de avanço do PIB citada por Mansueto, seu interlocutor no evento.

Ao falar sobre investimento estrangeiro, Guedes defendeu que estava desempenhando seu papel de ministro para organizar a economia.

— Tem que trabalhar em vez de vender. Não adianta vender o que não dá pra entregar. Imagina se eu trago os gringos todo para o Brasil, com dólar a R$ 2,20. Aí o dólar vem a R$ 5,50… – comentou, levando em conta a variação cambial dos últimos anos.

E acrescentou:

— Primeiro tem que entregar, depois os caras vêm devagarzinho. Entram (com dólar) a R$ 5,50, e quem sabe vão sair a R$ 3,20, daqui a dois, três anos.