Protagonista de 'Malhação' e 'As Five', Ana Hikari diz que é preciso mais representatividade para asiáticas na TV: 'Dá um sentimento de empoderamento'

Laura Suprani*
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A jovem atriz Ana Hikari, de 26 anos, interpretou a primeira protagonista asiática da Rede Globo, integrando o elenco de “Malhação - Viva a diferença” em 2017. Sua personagem, a adolescente Tina, fez sucesso entre o público e introduziu uma mudança na forma como aisáticos são retratadas no audiovisual, fomentando o debate sobre representatividade e discriminação racial.

Este ano, com a reexibição da temporada, ela se pronunciou em suas redes sociais: "De quantos em quantos mil anos as portas abrem pra passar o raro cometa da representatividade?". A atriz, de ascendência japonesa, também protagoniza a série "As Five", derivada de "Malhação", e compõe o elenco da próxima novela das sete da emissora.

Desde a chegada da televisão ao Brasil, nos anos 50, apenas três produções da TV aberta foram protagonizadas por atores asiáticos: “Yoshiko, um poema”, em 1967, por Rosa Miyake; “Negócio da China”, em 2008, por Jui Huang; e “Malhação”, em 2017, por Ana Hikari. Aos já conhecidos desafios de percorrer uma carreira como atores e atrizes, somam-se as barreiras criadas pelo preconceito. Apesar de formarem uma comunidade expressiva da população brasileira, pessoas de origem asiática são frequentemente excluídas das produções de televisão e cinema, quando não reduzidas a papeis secundários recheados de estereótipos.

Divididos entre clichês e caricaturas, a maior parte desses personagens não representa adequadamente essa parcela da população, que luta para combater o racismo contra pessoas de origem asiática no Brasil, muitas vezes considerado inexistente e varrido para debaixo do tapete.

— Para nós, pessoas amarelas, esse é o momento para sairmos do lado da branquitude e nos tornarmos aliados na luta contra o racismo — diz Ana. — Eu gostaria de construir minha carreira como atriz e ponto. Que as pessoas possam ver o meu talento para além da minha identidade.

Em entrevista à CELINA, por telefone, ela falou sobre sua carreira, a pandemia de Covid-19 e o crescimento da discriminação contra pessoas asiáticas, e representatividade na produção audiovisual brasileira.

CELINA: Como foi esse ano para você?

Ana Hikari: Acho que foi um ano muito complicado para todo mundo, e para mim não foi diferente. Mas, como passei muito tempo em casa, consegui fazer coisas que queria, como estudar mais, aprender francês e voltar a fazer aulas de canto. Felizmente, eu tive esse privilégio e pude ficar em casa. Acho importante ter sempre essa delicadeza de entender o nosso lugar privilegiado, porque muitas pessoas não tiveram essa opção. No meio disso tudo, acho que conseguimos olhar muito para o outro e ter empatia. Se fosse escolher uma palavra pra mim, seria essa: empatia. Pessoalmente, consegui olhar e pensar muito no próximo; como apoiar, como pensar em prol do outro.

Quando e por que decidiu que queria ser atriz?

Acho que a arte é uma história longa na minha vida, que está comigo desde pequena. Meu pai trabalha com cinema, e quando eu era criança ia com ele para festivais, exibições, museus. Enquanto crescia, comecei a fazer aulas de canto e a participar de um coral infantil. Um dia, participei de uma apresentação, com uns 8 ou 10 anos, e pela primeira vez subi num palco como o do Theatro Municipal de São Paulo. Foi quando eu descobri que esse era o meu lugar. Desde então, fiz aulas de teatro, cursos livres, curtas metragens, e segui com a graduação em Artes Cênicas na USP. Até que surgiu a oportunidade de fazer o teste para “Malhação”.

O que significou, para você, ser a primeira protagonista asiática da Globo, com a Tina em "Malhação - Viva a diferença" e uma das únicas da TV brasileira?

Em 1967, Rosa Miyake foi a primeira protagonista amarela da TV brasileira, numa novela da TV Tupi. Eu fui protagonista em 2017. Ou seja, 50 anos depois. Quando eu entrei para o elenco, eu nunca tinha visto protagonistas asiáticas antes, então não acreditei muito que eu seria uma. Quando a ficha caiu, entendi a responsabilidade e a importância disso. É muito importante para brasileiros de origem asiática, que nunca se viram representados antes, menos ainda num local de protagonismo. A ausência de representatividade na mídia é uma forte questão para a autoestima e provoca também uma grande sensação de não pertencimento. Parece que você não existe, que não é visto. E essa é uma sensação que fez parte da minha vida por muito tempo.

Quando a gente coloca esse grupo em destaque, vira um pouco essa chave na sociedade e começamos a construir novos modos de pensar, em que possamos criar novas histórias e novas referências; de atitude, de história, de beleza. É você fazer mesmo uma transformação na sociedade. Fico com uma sensação de que podemos, sim, estar nesses espaços em que nunca nos vimos até então. É realmente um sentimento de empoderamento.

E como você se sente em poder reviver essa personagem em "As Five", agora em novas situações e novos desafios, nesse processo de "tornar-se adulto"?

Fico muito feliz em poder fazer a Tina mais uma vez na série, porque ela consegue construir um lugar de humanização para essa figura. Ela tem complexidades, ela tem história, e não está ali para cumprir um papel estereotipado.

Também é muito bom podermos falar sobre tantos assuntos importantes sem tabu. Masturbação feminina, orientação sexual, consumo excessivo de drogas, incluindo drogas lícitas, terapia, são só alguns exemplos. E são assuntos que os jovens querem falar sobre. Acredito que estamos conseguindo tocar em assuntos muito pertinentes pra essa geração, que está entrando na vida adulta em uma sociedade como a nossa. Para além do entretenimento, é um programa de utilidade pública.

Alguma vez você já sofreu algum tipo de preconceito, ou perda de oportunidades de trabalho, por conta de sua origem asiática?

Uma coisa que acontece muito, não apenas comigo, mas com pessoas racializadas em geral, é que, enquanto atores, as pessoas nos chamam para testes de elenco apenas quando está brifado que um personagem é racializado; seja negro, indígena ou amarelo. Por isso, acabamos tendo limitações em testes e oportunidades. Acho que sofri com isso a minha vida inteira. Testes para garotas da minha idade, que não fossem definidas como “asiáticas”, por exemplo, nunca apareciam para mim. Acredito que hoje em dia as equipes estão começando a ter essa percepção de convidar pessoas de diferentes etnias, para interpretar qualquer personagem. Eu também sou uma menina comum e poderia ter exercido diversos papéis de outras meninas comuns. Nós somos atores e atrizes tão capacitados e talentosos quanto atores e atrizes brancos.

Em geral, as pessoas costumam ter mais resistência em admitir que existe racismo contra pessoas de origem asiática no Brasil. Por que você acha que isso acontece?

Acho que a dificuldade, na verdade, tem origem no mito da democracia racial, que foi pregado durante tanto tempo para poder amenizar a ideia de que existe discriminação contra pessoas não brancas. Esse discurso serviu para uma discussão falsa de que não existe raça no Brasil, de que somos todos iguais, independente de etnia ou cor de pele. Há uma falta de compreensão muito grande das pessoas sobre o fato de que existem identidades raciais diversas. Falta diálogo sobre diversidade e falta entender que somos, sim, diferentes.

Negar essas identidades não é um avanço. Estamos começando a entender a importância de discutir e de se identificar racialmente. Se não fosse a luta de pessoas negras em trazer esse debate à tona, eu não teria espaço para falar sobre a minha identidade. Esse debate avançou, principalmente, graças aos esforços de pessoas negras, numa luta que não é de hoje, mas de muitos anos, em poder se afirmar. Hoje, a dificuldade que a gente tem diz respeito à negação de diferenciar identidades raciais e de trazer à tona discriminações e privilégios que fazem parte da hegemonia branca. Fazendo uma autocrítica, acho que pessoas amarelas também têm dificuldades em entender seus privilégios em relação a pessoas negras e indígenas. Uma saída de escape, para nós, era aceitar isso e nos associar a pessoas brancas. Acho que é uma grande dificuldade, abrir mão disso e dar as mãos para pessoas negras na luta contra o racismo.

E como essa discriminação aumentou com a pandemia, como consequência das narrativas criadas para associar o vírus aos povos asiáticos?

Acho que o que a gente está vivendo é mais uma repetição da história. O “perigo amarelo” é um termo que não é de hoje, e sempre vem à tona quando vemos uma potência asiática crescendo e ameaçando a hegemonia de uma potência ocidental. Nos últimos anos, vimos a China se destacar no cenário socioeconômico, em contraposição aos EUA. E, com isso, vemos a repetição desse mito, que coloca a China num lugar de perigo. Com a pandemia, nasceu um discurso de que a China criou o vírus, ou de culpar os chineses pelo surgimento da doença. Isso só expõe uma discriminação que oscila em relação às pessoas amarelas. Em outra época, o Japão foi colocado nesse lugar. Saímos então do mito da “minoria modelo”, que vê as pessoas asiáticas como dóceis, educadas, excelentes no que se propõe a fazer, para o outro oposto, que é esse lugar de ameaça, sujeira, doença. Esses dois lados são parte de um processo de desumanização que envolve pessoas racializadas. São atos de discriminação social pautada em raça. Nesse ano, vivemos situações bizarras por conta disso. Por exemplo, locais que separavam elevadores apenas para o uso de pessoas chinesas. No pré-carnaval, antes do vírus chegar ao Brasil, um homem chegou pra mim e gritou: “sai com esse coronavírus daqui”; jogaram álcool em gel no rosto de uma amiga minha. São episódios que aumentaram com a pandemia, mas que apenas expõem situações com que lidamos sempre.