Proteger habitats naturais é a solução para prevenção de futuras pandemias, dizem cientistas

Um grupo de cientistas descobriu a chave para a prevenção de futuras pandemias: a proteção dos habitats naturais dos animais. Em estudo feito com “raposas voadoras australianas”, um tipo de morcego, eles concluíram que conseguem prever até dois anos à frente quando os surtos do Hendra, um vírus específico do animal, provavelmente aparecerão. Caso as ações para evitar esses episódios sejam aplicadas em habitats de outros animais que também tenham patógenos perigosos, “talvez possamos prevenir a próxima pandemia”, disse Raina Plowright, coautora do estudo na Cornell University, em Nova York.

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O Hendra causa uma infecção respiratória muito rara e mortal que mata uma em cada duas pessoas infectadas. Ele, como o Sars-CoV-2 (que causou a pandemia de Covid-19), é um vírus de morcego que se espalhou para as pessoas em um processo que os cientistas chamam de “transbordamento”, ou seja, por meio de um animal intermediário. Nesse caso das raposas voadoras australianas, o cavalo.

Peggy Eby e sua equipe identificaram os fatores ambientais do transbordamento nesse grupo de morcegos e determinaram como esses eventos podem ser evitados no futuro. A ecologista de vida selvagem da Universidade de New South Wales em Sydney, na Austrália, é a autora do estudo que teve seus resultados publicados na Revista Nature no dia 16 de novembro.

Transbordamento: dos morcegos para os homens

Os pesquisadores descobriram que grupos de transbordamento do vírus Hendra ocorrem após alguns anos em que os morcegos experimentam situações de estresse alimentar causado por escassez de alimentos. No entanto, se as árvores das quais os morcegos dependem para se alimentar durante o inverno tiverem um grande evento de floração no ano seguinte à escassez, o fenômeno não acontece. O problema, segundo Plowright, é que “já não resta quase nenhum habitat de inverno”, o que faz com que os morcegos espalhem ainda mais vírus.

"Houve picos de infecção realmente dramáticos no inverno", disse o coautor Daniel Becker, ecologista especialista em doenças infecciosas na Universidade de Oklahoma, nos EUA.

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Ao longo do estudo, a equipe notou mudanças significativas no comportamento dos morcegos, que passaram de um estilo de vida predominantemente nômade para se estabelecerem em pequenos grupos em áreas urbanas e agrícolas, se aproximando, assim, de onde vivem cavalos e humanos.

Os pesquisadores constataram que, com a restauração dos habitats das poucas espécies naturais que florescem no inverno, menos transbordamentos ocorreriam em cavalos e, consequentemente, em humanos.

“O que é tão empolgante nesse estudo é que ele levou diretamente a soluções”, disse Sarah Cleaveland, veterinária e ecologista de doenças infecciosas da Universidade de Glasgow, no Reino Unido.

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Cleaveland afirmou ainda que a abordagem do estudo pode trazer novos “insights” para o estudo de outros patógenos, incluindo o Ebola.

O estudo fornece “uma compreensão muito mais clara dos causadores desse problema, com ampla relevância para pandemias em outros lugares”, disse Alice Hughes, bióloga de conservação da Universidade de Hong Kong, na China. “O documento ressalta ainda o risco aumentado que provavelmente veremos com as mudanças climáticas e o aumento da perda de habitats ao redor do mundo”, concluiu.