À frente de novo arsenal nuclear, Putin busca 4º mandato como "pai da nação"

Ignacio Ortega.

Moscou, 16 mar (EFE).- O presidente da Rússia, Vladimir Putin, quer se reeleger para ficar mais seis anos no cargo e deixar um legado que hoje oscila entre a rigidez com inimigos, oposição e Ocidente, e o papel de "pai da nação".

"Não é um blefe, acredite em mim", garantiu, ao apresentar o novo arsenal nuclear russo.

Com uma popularidade de mais de 80% após duas décadas no poder, Putin concorre consigo mesmo e com a história, convicto de que ela o absolverá por ter enfrentado os Estados Unidos.

Pouco importa que, uma vez passado o boom do petróleo, a Rússia continue a ser um país atrasado, com mais de 20 milhões de pobres, que sabe fazer tanques, mas não telefones celulares, e que a economia esteja estagnada há uma década.

O importante para Putin é a imagem da Rússia no mundo - uma imagem de quem não baixa a crista. Como o Kremlin gosta de dizer, os russos são capazes, inclusive, de comer menos em prol da grandeza do país. Temido e admirado em partes iguais no exterior, ele representa para o Ocidente um rival sem igual desde a Guerra Fria.

Aos olhos dos russos, a sangrenta guerra da Chechênia o coroou como salvador da pátria; a intervenção militar na Geórgia o consolidou como um líder temível; a anexação da Crimeia o consagrou como o novo czar de todos os russos, e a cruzada em apoio de seu aliado sírio Bashar al Assad o transformou em um líder universal.

Putin conseguiu em quase duas décadas um apoio popular que nem seus contemporâneos sonharam, e muito menos seus antecessores no Kremlin. Recebeu um país de joelhos, que estava sangrando, e lhe devolveu o orgulho nacional.

Com honrosas exceções, um século após a Revolução Bolchevique os russos apoiam integralmente a política externa de Putin, desde a recuperação de territórios à guerra contra o terrorismo na Síria.

"Um império não pode ser democrático. Para isso, primeiro é preciso deixar de ser um império", afirmou à Agência Efe a ativista e eterna candidata ao prêmio Nobel da Paz Lyudmila Alexeyeva.

Talvez por isso Putin não queira - mas tampouco possa - ser um líder democrata. Não é o que seu povo exige dele, que nunca foi capaz de proporcionar à Rússia uma liberdade maior que a que o país teve em breves momentos antes e depois da queda da URSS.

Desde sua chegada ao poder, Putin manipulou a oposição ao Kremlin até o ponto de não haver partido opositor com representação parlamentar, e quando retornou ao Kremlin, em 2012, aprovou algumas severas leis contra a liberdade de manifestação que estrangularam os protestos contra o governo.

Os russos que votam pela primeira vez no domingo não conhecem outro chefe do Kremlin que não seja o ex-coronel da KGB, que chegou ao poder com apoio do antecessor Boris Yeltsin.

Aos 65 anos de idade, Putin parece cansado, mas não está disposto a deixar o poder. Cansado nem tanto por ter que lidar com a conhecida negligência de seus funcionários e a irresponsabilidade dos oligarcas do país, mas por ter que responder ao Ocidente.

Em seu recente discurso sobre o estado da nação, no qual anunciou o novo arsenal nuclear, ele mostrou duas faces. A de líder benfeitor, preocupado com as dificuldades que as famílias russas atravessam, e a de um comandante implacável que não aguentará mais uma ameaça por parte da Otan sem reagir.

Para alguns analistas, os 18 anos de Putin no poder são uma história de oportunidades perdidas. A Rússia poderia ter se juntado ao clube das nações civilizadas, mas preferiu optar pela via chinesa: estabilidade e rearmamento, em vez de reformas e democracia.

Apenas Putin parece saber como continuar mantendo o contrato social com os russos, o que significa investir bilhões em programas sociais com o preço do petróleo na metade do que há três anos, e gastar enormes quantias em armamentos.

Como bom bolchevique, o líder russo gosta muito das teorias de conspiração stalinistas e parece convicto de que a melhor forma de garantir a independência da Rússia é com uma nova corrida armamentista como a que enterrou a URSS.

Esse parece ser o último capítulo de seu legado: uma Rússia que enfrenta o Ocidente, isolada pelas sanções internacionais, com quase nenhum aliado e uma população com uma mentalidade de força sitiada. EFE

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